O meu filho tem quase 18 anos e sempre se queixou de "aborrecimento"
nas aulas. Diz que não o motivam, nem para estudar, nem para a vida
ativa... Não sabe o que quer fazer profissionalmente, ainda ninguém o
despertou para isso. Respondo-lhe que tem de ir
para algo de que ele gosta mesmo, mas ele replica: "o problema é que eu
não sei o que gosto, nunca tive a oportunidade de experimentar
nada!!!"
E ele tem toda a razão. "Só podes aguentar"- disse-lhe - "até porque já estás quase a acabar e depois logo hás-de descobrir..."
Depois de ler sobre os debates atuais, sobre o Ensino, perguntei-lhe então como é que veria a Escola e as suas primeiras sugestões foram:
- Menos horas de aulas: "certas aulas são uma seca, principalmente quando temos dois tempos a História, por exemplo".
- Aulas de manhã e à tarde atividades: desporto para quem tiver jeito para isso, aprender a cozinhar, a cultivar... Para quem tiver ambição para a área da saúde, visitar hospitais;
para quem tiver vocação para animais, visitar veterinárias e jardins
zoológicos; para quem gostar de carros, ir aos mecânicos; quem gostasse
de pastelaria, passaria uma tarde com um padeiro... "Assim
teríamos uma ideia da vida profissional lá fora e poderíamos ter a
certeza de que é isto que gostaríamos de fazer, ou não..."
Ou seja uma escola mais ativa e sem mais testes.
A minha filha este período queixou-se da quantidades excessiva de
testes: 17!!! Que horror... Ela disse que os professores dão as aulas a
correr porque o programa é muito extenso, que eles próprios queixam-se
de que não têm tempo de dar a matéria toda se tiverem
que estar sempre a explicar, que ela passa a vida a aprender de cor
para os testes, que não é motivador... E que não faz mais nada do que
decorar para os testes...
Como mãe proponho também: meditação, foco no objetivo, yoga do riso
e outras terapias alternativas, essenciais para o bem mental e emocional
das crianças e jovens adultos. Pois a vida é cheia de desafios e saber
lidar com eles, gerindo a suas emoções e
stress, logo de pequenos, é algo de muito valioso para o futuro
profissional dos nossos filhos.
Também não estou a favor dos TPC e dos testes, que tiram o pouco
tempo disponível para algo mais ativo e alegre. Temos que criar
competitores mas não competitores entres eles (onde o que tem melhor
memória vence e esmaga os outros), mas competitores com eles
próprios, descobrindo a sua vocação nata e indo assim conseguindo fazer
sempre melhor, sabendo que, se trabalharem, conseguirão
realizar todos os seus sonhos...
Quem somos
O Mundo transforma-se a uma velocidade estonteante.
Mudou a forma como nos relacionamos, como aprendemos. Não deveria mudar também a forma como ensinamos? Que tipo de cidadãos precisamos de formar para fazer face a um futuro que desconhecemos?
São cada vez mais os professores, pais e alunos que colocam a si próprios estas questões, e sentem no seu dia-a-dia a necessidade de mudança.
Aqui ficam os seus manifestos e relatos de boas práticas...
terça-feira, 8 de novembro de 2016
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
O que Vejo no Ensino de Hoje (Mafalda Lira)
Há
15 anos comecei o meu percurso pelo ensino, leccionando
Matemática ao 10º e 11º anos. Fiz carreira académica, fui investigadora e
professora muitos anos no ensino superior na UL e no Politécnico de
Lisboa. Nessa passagem cheguei até a dar
aulas ao curso de Educação, onde leccionei a cadeira de Probabilidades e
Estatística de professores de 1º ciclo e educadores de infância.
Voltei por motivos pessoais ao ensino básico e secundário. Já leccionei do 5º ao 12º ano, o que me permite ter uma visão mais abrangente do ensino. E agora, 15 anos depois, vejo:
- escola burocratizada: uma escola em que há papéis a circular por todo o lado, onde o processo tem processos para tudo, reuniões obrigatórias muitas vezes sem sentido, papéis e papéis que são elaborados para uma inspecção e que a meu ver sem mais utilidade; há nomenclatura para tudo: PEI, PAPI... Quem esteve "fora" 15 anos sente-se um ET em terra!
- uma preocupação exacerbada com alunos NEE (necessidades educativas especiais), a meu ver um abuso de ritalinas;
- Metas curriculares: onde se abordam assuntos descoordenados por ano, desemparelhados da realidade e da idade (por vezes os alunos ainda não têm maturidade cognitiva para os assimilar); não se percebe a razão das razões!
- professores desmotivados, sem tempo para preparar aulas; exaustos com processos de avaliação e com a escola burocratizada; exaustos com a desmotivação dos alunos e sobretudo com a indisciplina, a meu entender, o monstro maior a combater! Professores que não concordam muitas vezes com os assuntos leccionados, com a forma e tempo que têm para os abordar; professores que para o serem têm que optar por ter vida pessoal e profissional e, mesmo assim, têm que encontrar motivação para o fazer.
- alunos saturados e alheios ao que aprendem, alunos que sentem que os programas são desadequados à sua realidade, muitas vezes inúteis. A linha que separa essa desmotivação para a falta de respeito nas aulas também é muito estreita. Hoje olhei para a minha aula e, apesar do esforço, não vi gosto, não vi motivação, vi um presente vivido na obrigação de estar aqui, até ao toque...
- pais e tutores: há pais que vivem a vida dos filhos e que, de tanto os protegerem não os deixam ser, nem os preparam para serem! Na oposição, outros pais que, pela sociedade frenética que criámos, não têm tempo para os filhos, para as regras e receiam o “Não”! Estes também não os preparam para a vida, para as adversidades. É importante, em casa, prepararmos os nossos filhos para a escola, nós pais somos os principais educadores e não podemos desresponsabilizar-nos disso!
E falamos tanto do ensino da Finlândia... estamos a comparar o incomparável. Uma sociedade mais fria mas que respeita normas, onde o professor não tem que impor disciplina constantemente porque ela está naturalmente presente na sociedade. Onde os alunos têm liberdade e confrontam a realidade e são motivados pelo gosto de aprender. Onde as turmas não têm 30 alunos e, por isso, podem trabalhar em projectos. Onde os professores têm um salário digno, não têm confrontada a sua vida pessoal com profissional e são naturalmente respeitados pela profissão nobre que escolheram. Não há metas e burocracias, programas obrigatórios a cumprir... há um despertar para o conhecimento.
Há liberdade para aprender, mas não se confunda liberdade com libertinagem e autoridade com autoritarismo.
A escola pode ser tudo se todos mudarmos um pouco... Mas nem tudo é mau, somos um povo com calor, que abraça, que canta o fado e que vive! Não queiramos ser como os outros, queiramos ser autênticos e, com a educação, comecemos cada um de nós, agentes da educação, por promover a mudança sem perder a nossa essência.
Voltei por motivos pessoais ao ensino básico e secundário. Já leccionei do 5º ao 12º ano, o que me permite ter uma visão mais abrangente do ensino. E agora, 15 anos depois, vejo:
- escola burocratizada: uma escola em que há papéis a circular por todo o lado, onde o processo tem processos para tudo, reuniões obrigatórias muitas vezes sem sentido, papéis e papéis que são elaborados para uma inspecção e que a meu ver sem mais utilidade; há nomenclatura para tudo: PEI, PAPI... Quem esteve "fora" 15 anos sente-se um ET em terra!
- uma preocupação exacerbada com alunos NEE (necessidades educativas especiais), a meu ver um abuso de ritalinas;
- Metas curriculares: onde se abordam assuntos descoordenados por ano, desemparelhados da realidade e da idade (por vezes os alunos ainda não têm maturidade cognitiva para os assimilar); não se percebe a razão das razões!
- professores desmotivados, sem tempo para preparar aulas; exaustos com processos de avaliação e com a escola burocratizada; exaustos com a desmotivação dos alunos e sobretudo com a indisciplina, a meu entender, o monstro maior a combater! Professores que não concordam muitas vezes com os assuntos leccionados, com a forma e tempo que têm para os abordar; professores que para o serem têm que optar por ter vida pessoal e profissional e, mesmo assim, têm que encontrar motivação para o fazer.
- alunos saturados e alheios ao que aprendem, alunos que sentem que os programas são desadequados à sua realidade, muitas vezes inúteis. A linha que separa essa desmotivação para a falta de respeito nas aulas também é muito estreita. Hoje olhei para a minha aula e, apesar do esforço, não vi gosto, não vi motivação, vi um presente vivido na obrigação de estar aqui, até ao toque...
- pais e tutores: há pais que vivem a vida dos filhos e que, de tanto os protegerem não os deixam ser, nem os preparam para serem! Na oposição, outros pais que, pela sociedade frenética que criámos, não têm tempo para os filhos, para as regras e receiam o “Não”! Estes também não os preparam para a vida, para as adversidades. É importante, em casa, prepararmos os nossos filhos para a escola, nós pais somos os principais educadores e não podemos desresponsabilizar-nos disso!
E falamos tanto do ensino da Finlândia... estamos a comparar o incomparável. Uma sociedade mais fria mas que respeita normas, onde o professor não tem que impor disciplina constantemente porque ela está naturalmente presente na sociedade. Onde os alunos têm liberdade e confrontam a realidade e são motivados pelo gosto de aprender. Onde as turmas não têm 30 alunos e, por isso, podem trabalhar em projectos. Onde os professores têm um salário digno, não têm confrontada a sua vida pessoal com profissional e são naturalmente respeitados pela profissão nobre que escolheram. Não há metas e burocracias, programas obrigatórios a cumprir... há um despertar para o conhecimento.
Há liberdade para aprender, mas não se confunda liberdade com libertinagem e autoridade com autoritarismo.
A escola pode ser tudo se todos mudarmos um pouco... Mas nem tudo é mau, somos um povo com calor, que abraça, que canta o fado e que vive! Não queiramos ser como os outros, queiramos ser autênticos e, com a educação, comecemos cada um de nós, agentes da educação, por promover a mudança sem perder a nossa essência.
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
Por uma escola diferente, com filosofia e gosto pelo pensar (Joana Rita Sousa)
Desde
que me lembro que a escola faz parte da minha vida. Com três anos de
diferença do meu irmão, mais velho, lembro-me de querer sempre
acompanhá-lo nos trabalho. Sou do tempo em que não havia jardim de
infância e as crianças ficavam com a família, até à idade escolar.
A
minha mãe conta que comprou um caderno só para mim e que eu imitava
aquilo que o mano fazia. A verdadeira "macaquinha de imitação".
Quando
entrei na escola já sabia algumas coisas. Nunca houve pressa para me
ensinar nada, cá em casa. Mas eu via e aprendia com o mano, de forma
natural. Ir para a escola era algo que eu aguardava muito. Ia ser a
minha vez de trazer trabalhos para casa. Foi uma aventura. E um
desalento.
Não
compreendia por que é que os meninos demoravam tanto tempo a aprender
as coisas. "Tantos dias para aprender o a!" - eram coisas destas que a
minha mãe ouvia, quando eu chegava. Tive que aprender a esperar (algo
que ainda hoje estou a aprender, confesso). E tinha um caderno cá em
casa, só para casa, para treinar coisas que eu já sabia e que os meus
colegas ainda não tinham aprendido. É que o mano continuava a estudar,
uns anos "mais à frente" e eu, curiosa como sou, não resistia a
acompanhá-lo nos estudos. E a professora não gostava muito que eu
avançasse nas coisas. Eu avançava, sim, mas só em casa.
Apesar
de tudo, nunca deixei a escola. Estudei filosofia na universidade e
continuo, até hoje, a estudar. Preciso da escola para me disciplinar na
investigação, para cumprir objectivos. Além disso, trabalho em escolas.
Trabalho
na área da filosofia para crianças e é com muito gosto que levo a
filosofia para dentro do jardim de infância ou das salas do 1º ciclo. O
gosto é ainda maior quando são os educadores de infância e até mesmo os
pais que solicitam a minha intervenção.
É
maravilhoso ver os mais pequenos a descobrir as maravilhas do pensar, o
lado lúdico das ideias e o espanto - aquilo que é tão próprio dos
filósofos.
O
que não é tão maravilhoso é ver como as escolas precisam tanto de mudar
o seu olhar sobre a criança. Há muitos anos que se fala em mudança, em
assertividade, em inteligência emocional, em criatividade, em "mais
atenção à criança e às suas necessidades", em escolas inclusivas e
outras coisas que tais. Mas o facto é que ainda há escolas onde o acesso
ao 1º andar só acontece através de umas escadas horríveis. O facto é
que há escolas construídas com uma acústica péssima que torna impossível
ter uma aula com a porta aberta. Há escolas onde as cadeiras são tão
desconfortáveis que nem percebo como é possível estar sentado ali
durante mais do que uma hora. As salas continuam com a configuração
habitual: filas de mesas e cadeiras. E só vemos as nucas uns dos outros.
E o rosto? Trabalha-se para o aluno médio e ficam de fora os alunos que
"o sistema" identifica como lentos ou demasiado espertos. Depois há as
concepções de "portar bem" e "portar mal" - que tantas vezes são medidas
de acordo com a capacidade que o aluno tem em ficar ou não calado e
quieto.
Temos
um professor ou educador para vinte e oito alunos - o que é violento,
para ambas as partes. Há escolas com quatrocentos alunos e quatro
assistentes operacionais para toda a escola.
Isto acontece agora, enquanto eu escrevo estas palavras.
Por
tudo isto - e algumas coisas mais - fico muito emocionada quando vejo
pais, educadores, professores e assistentes operacionais a "fazer
magia" com os recursos que têm. E ainda se consegue fazer magia. É
esgotante, é um constante lutar contra a maré. Mas consegue-se.
Trabalhar
por uma escola diferente significa olhar para os exemplos que nos
chegam de fora - e de dentro. Escola da Ponte, Casa da Árvore (em
Leiria) ou o agrupamento de escolas gerido pelo professor Adelino
Calado. Temos exemplos que nos mostram que é possível pensar, desejar e
fazer acontecer uma escola diferente, mais ajustada às crianças dos dias
de hoje, às necessidades de aprendizagem diversificadas que cada um
apresenta. É possível o verdadeiro trabalho interdisciplinar:
psicólogos, professores, educadores, pais, família, profissionais do ATL
(actividades de tempos livres) ou das AEC (actividades
extra-curriculares / de enriquecimento curricular).
E
se é possível, só temos que "contaminar" os locais por onde passamos.
Cada um de nós. Fazer a diferença na vida das crianças com quem
trabalhos.
Há
uns anos trabalhei numa escola do 1º ciclo, como técnica de AEC. Era
conhecida pela "professora que não gostava de ser tratada como
professora". Cedo comecei a perceber que os alunos não sabiam os nome
dos professores, com excepção do professor titular. No final do ano,
quando perguntavam a um dos alunos quem tinham sido os seus professores,
o pequeno Manuel (nome fictício) , do alto dos seus 7 anos, respondeu:
"Era a professora Andreia [nome fictício para a professora titular], a
teacher [professora de inglês], a professora de expressões, o professor
de educação física e a Joana."
É
fundamental não perder a esperança e não baixar os braços. No meu caso
específico, há que persistir neste trabalho que consiste em alimentar o
pensamento crítico e criativo da criançada com quem tenho o privilégio
de me sentar para filosofar. Para mim, a filosofia deverá estar nas
escolas desde cedo. Desde os 3 anos, no jardim de infância. O trabalho
do filósofo tem que ter uma componente pedagógica relevante e deverá ser
realizado em equipa com os educadores e professores de cada turma, de
cada aluno. Se isso sempre acontece? Não. Tenho tido a felicidade de
trabalhar em parceria com educadores e professores interessados - e
outros que nem por isso. Foco-me no trabalho com os primeiros e tento
fazer o melhor possível com estes últimos.
Todos
os dias trabalho por uma escola diferente, com filosofia e gosto pelo
pensar. Por falar nisso, tenho algumas aulas para planear. E um jogo que
prometi a uma turma, em que pudéssemos brincar ao "whatsapp" e usar a
filosofia. Meti-me em trabalhos, está visto. Mas daqueles trabalhos
bons, em que sou chamada a pensar e a criar. Porquê? Por que os meus
alunos me desafiam, todos os dias.
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
Manifesto Anti-Trabalhos Para Casa (Rita Alves)
Manisfesto
Anti-Trabalhos Para Casa
Para começar este
manifesto devo apresentar-me: sou “professora do 1º ciclo” e mãe de um
Guerreiro de Voz Branca com 5 anos e que entrou este ano para o 1º ano.
Porquê este
Manifesto? Porque quero deixar público o testemunho da minha posição
Anti-Trabalhos Para Casa, enquanto “professora” (prefiro o termo Educador), mãe e
cidadã.
Para que serve este
Manifesto? Para soltar a minha opinião,
para saber a vossa, para agregar algumas vozes,
para reflectir.
Os meus ex-alunos e
ex-encarregados de educação já me criticaram, já me amaram e odiaram por causa
da minha atitude em relação aos TPC. Até agora a minha posição era construída
com base na minha identidade profissional, neste momento de vida, ela passa a
ser coadjuvada com a identidade materna!
Qual o principal intuito
de um Trabalho Para Casa?
Treino; consolidação;
organização; elo de ligação entre a vida da escola e da família.
Manifesto-me
Manifesto-me contra
os TPC que não constroem conhecimento, curiosidade, vontade de aprender.
Manifesto-me contra
TPC no 1º ano de escolaridade para desenhar números ou letras. Dêem-nos
desenhos para fazer, desafios e descobertas para que eu, mesmo em tempo de
fim-de-semana, continue com vontade de ir à escola.
Manifesto-me contra
os TPC que exigem a presença de um adulto ao lado da criança. Os TPC têm origem
na sala de aula, quando chegam a casa os meus encarregados de educação perderam
8 horas de matéria, e todas as suas opiniões podem estar desadequadas em relação ao que me foi transmitido.
Manifesto-me contra
um manual de TPC. A minha casa é diferente da vossa, e é impossível fazer
sentido o mesmo trabalho para ti e para mim.
Manifesto-me contra
os TPC que me desorganizem, que me gerem confusão, frustração.
Manifesto-me contra
a quantidade de TPC. A menos que haja trabalho em atraso (e mesmo assim, deverá
ser construído um espaço na aula para o fazer) a quantidade de TPC é
assustadoramente anormal. Não quero sentir que me despejam matéria e eu depois
que continue o trabalho em casa.
Manifesto-me contra
TPC, a menos que estes possam construir uma boa relação com a minha casa e família.
Exijam-me que me contem apenas uma história à noite, num sítio confortável, sem
confusão e que estejamos verdadeiramente juntos e com Tempo.
Manifesto-me contra
os TPC porque já cumpri, no mínimo, 8 horas de trabalho. Qualquer pessoa tem o
sonho de sair do seu local de trabalho e desligar a sua mente do lado
profissional. Quando levamos trabalho para casa ficamos irritados, a achar que dois dias de folga não são nada e
que não parámos. Porque me colocam nesta posição?
Manifesto-me contra tantos
TPC e tantas outras Torturas Para Crianças de que os professores tanto gostam de
aplicar, como que num gesto de competência académica, e que tantos pais gostam
de receber para manter os seus filhos sossegados durante uma hora (pelo menos).
Manifesto-me
contra
os TPC. Na minha casa tenho de contar a história do meu dia (organização
do
pensamento, língua portuguesa, matemática, estudo meio, prazer, etc.);
aprender
a organizar os meus brinquedos (matemática, etc.); jogar jogos de
tabuleiro
(matemática, língua portuguesa, concentração, etc.); inventar novas
brincadeiras (língua portuguesa, matemática, estudo do meio, expressões
artísticas, expressão físico-motora); sentar-me ao colo da minha
avó/tia/prima/mãe/pai/madrinha e pedir-lhe mimo (prazer, amor, etc.);
passear o meu cão na rua (estudo do
meio, expressão físico-motora, etc.); brincar livremente (aprender as
regras da
vida); tomar banho (aprender a cuidar de mim); arrumar o meu quarto
(matemática, língua portuguesa, etc.); preparar a mesa para o jantar
(matemática, etc.); participar nas conversas à mesa (prazer, amor,
etc.); fazer
a minha higiene antes de deitar (cuidar de mim, etc.); ouvir uma
história antes
de dormir (prazer, amor, literacia, língua portuguesa, etc.) e
descansar. Não será tudo isto um verdadeiro Trabalho Para Casa?!
terça-feira, 18 de outubro de 2016
Manifesto de uma Mãe (Sónia Henriques)
POR UMA ESCOLA DIFERENTE
Uma Escola onde os Alunos são
acolhidos diariamente com alegria, com vontade, com satisfação
Uma Escola onde nos apeteça chegar de manhã
Uma Escola onde chegar nos dá borboletas na barriga
Uma Escola onde aprender possa
ser mais do que o debitar de saberes escolásticos, normativizados, que possa
ser dialética e desafiante
Uma Escola sem religião, sem raça, só de meninas e meninos
Uma Escola onde aprender também possa ser brincar
Uma Escola onde se aprenda fazendo, “pondo as mãos na massa”
Uma Escola onde se aprende que “as mãos fazem coisas”
Uma Escola onde os princípios e os valores, mais do que
cartazes afixados em paredes, possam ser praticados diariamente, por Todos
Uma Escola onde em vez de TPC haja desafios
Uma Escola onde conhecemos os nossos vizinhos
Uma Escola onde possamos desenvolver projetos que aplicam as
frases dos tais cartazes
Uma Escola onde amabilidade,
gentileza, alegria não são só letras de canções para cantar aos pais nos saraus do
final do ano
Uma Escola onde sempre que o sol espreita podemos ter aulas
ao ar livre
Uma Escola onde as fronteiras
entre salas e recreios não existam de forma delineada, no escorrega do pátio
aprendem-se princípios tão válidos como dentro da sala sentado numa cadeira
Uma Escola onde os Professores venham ao pátio “ensinar” os
meninos a brincar e aprendam também eles, Professores, a brincar
Uma Escola onde a chuva não tem que nos fazer recolher
sempre ao interior
Uma Escola onde se plante na horta parte daquilo que podemos
comer à mesa do refeitório
Uma Escola onde se possam fazer picnics, sempre que nos
apetecer
Uma Escola onde podemos descansar, ler livros, tocar música
debaixo de uma árvore
Uma Escola onde a sombra da árvore possa implicar levar com a
laranja na cabeça
Uma Escola onde em dias de chuva de estrelas, nos convidem a
ficar até mais tarde para nos ensinarem a vê-las
Uma Escola onde todos possam contar as suas histórias
Uma Escola onde se aprende que todos juntos vamos mais longe
Uma Escola onde não nos rimos de ti, rimo-nos todos juntos
Uma Escola onde a Equidade
é tão importante como a Igualdade
Uma Escola onde os ritmos de cada um são respeitados
Uma Escola onde conhecemos o nosso Planeta, e aprendemos a
respeitá-lo
Uma Escola onde conhecemos os
animais e os respeitamos, onde até os podemos levar connosco
Uma Escola onde quando um colega cai vamos todos levantá-lo
Uma Escola onde aceitamos duas
mães, dois pais, uma mãe, um pai, uma avó, etc, onde sabemos que o importante é
o amor
Uma Escola onde não haja necessidade de um Estatuto do Aluno
Uma Escola onde nos conhecemos
tão bem, que, quando um de nós está triste todos percebemos, todos ajudamos
Uma Escola onde todos somos responsáveis pelo espaço, por
limpá-lo e mantê-lo arrumado
Uma Escola onde os castigos são substituídos por meditação e
técnicas de relaxamento
Uma Escola onde os nomes das funções dos que lá trabalham
pouco importam se implicarem faltas de respeito, onde cada um vale pelo seu
nome
Uma Escola onde se exige respeito aos Alunos, mas se
respeitam os Alunos também, onde há reciprocidade, onde não te grito, porque a
minha autoridade não advém nem da minha altura, nem do meu estatuto, mas de
todos sermos pessoas
Uma Escola onde não se oferecem
presentes de natal ou de final de ano à Professora/Professor e se esquecem
todos os outros que lá trabalham
Uma Escola onde conhecemos e aceitamos hábitos de vida
diferentes dos nossos
Uma Escola onde convidamos amigos
estrangeiros para nos virem falar e nos darem a experimentar as suas culturas
Uma Escola onde aprendemos a
retribuir
Uma Escola onde os nossos
horários não parecem horários de adultos que lutam pela regulamentação das 35
horas semanais
Uma Escola onde as Artes são tão
importantes como as Letras e os Números
Uma Escola onde não há blocos de
noventa minutos de aulas, nos quais até os adultos têm dificuldade de se manter
atentos
Uma Escola onde não haja
necessidade de medicar meninas e meninos, apenas e só porque não somos todos
iguais
Uma Escola onde umas meias às
riscas ou com bonecos não são motivo de risota em grupinho, uma Escola em que
cada um possa expressar-se livremente sem ofender ninguém
Uma Escola onde os Pais façam
parte das aprendizagens
Uma Escola onde não haja dois
lados da barricada, Pais/Professores, aliás uma Escola onde não haja barricadas
Uma Escola onde os Pais nunca
falem mal dos Professores
Uma Escola onde os Pais aceitem
as meninas e os meninos diferentes, mais uma Escola onde os Pais consideram um
privilégio haver meninas e meninos diferentes
Uma Escola onde importantes somos
Todos
Uma Escola onde a Ginástica é tão
importante como as Letras ou os Números
Uma Escola sem quadros de honra
ou mérito
Uma Escola sem “examinites
agudas” aos 9, aos 11, aos 13 anos, de preferência sem exames
Uma Escola onde a preocupação
seja aprender, praticar, ensinar e não ajuizar, avaliar e examinar
Uma Escola onde se aprenda que
reconstruir é mais importante que deitar fora, que nem tudo é descartável
Uma Escola onde se aprenda que há
quem tenha muito menos do que nós, e que solidariedade
também não é só uma das tais palavras nos cartazes
Uma Escola onde a gratidão se aprende e se pratica todos
os dias
Uma Escola onde os Avós e os anciões são sempre bem
vindos, onde aprendemos a escutá-los e dar-lhes valor
Uma Escola onde a Educação das
Emoções seja tão importante como as restantes aprendizagens formais
Uma Escola onde se aprende a
evitar desperdícios, onde só nos servimos da quantidade que vamos comer, onde o
que fica nas travessas é distribuído por quem não sabe se vai ter jantar
Uma Escola onde podemos ser nós a
amassar o pão que vamos comer ao lanche
Uma Escola onde os canteiros e a
relva são cuidados por Todos
Uma Escola que não esquece que há
mais mundo, mas que podemos começar por ajudar os nossos vizinhos
Uma Escola que nos convida a
levar as nossas roupas que já não nos servem para doar a quem façam falta
Uma Escola onde aprendemos que as
meninas são respeitadas, onde não se levantam saias nem se mandam piropos
Uma Escola onde aprendemos que,
para fazer publicidade a um carro, por exemplo, não tem que estar uma menina a
rodar sobre si própria
Uma Escola onde aprendemos que a
violência no namoro (ou noutra qualquer fase da vida) não tem qualquer sentido,
que quem ama cuida
Uma Escola onde aprendemos a
capacitar meninos e meninas para a idade adulta
Uma Escola onde aprendemos e
praticamos: dividir, partilhar, etc
Uma Escola onde aprendemos que
pensar pela nossa cabeça é muito importante
Uma Escola onde aprendemos a
pensar, a questionar e a propor para mudar
Uma Escola onde aprendemos que
ter uma opinião é importante, mas que temos que saber sustentá-la e
argumentá-la
Uma Escola onde aprendemos que a
nossa Liberdade termina onde começa
a dos outros
Uma Escola onde aprendemos que ler,
escrever, desenhar, dançar, tocar música ou fazer teatro quebram barreiras
Uma Escola onde aprendemos que
podemos ser a mudança em que acreditamos
Uma Escola onde somos/fomos
felizes... dura-nos para toda a vida!
Manifesto de uma aluna (Sofia Cecílio)
É verdade, a escola é algo serio. Mas não demasiado! E sinto que cada
vez mais os professores a levam demasiado a serio. Não nos dão liberdade,
tiram-nos o tempo... Às vezes quero ir estudar piano ou canto porque é
aquilo que realmente quero fazer na minha vida e simplesmente não posso
pois a escola ocupa o espaço de mil e uma outras coisas importantes. A
música, teatro e tudo mais são coisas que estimulam, ao contrário do
que a escola tem feito.
Às vezes sinto que os professores não entendem que as coisas têm de mudar, senão nunca vai acontecer nada! Às vezes parece que eles querem fazer-nos passar pelo que passaram... Isso é tão mau! É tão mau não aceitar as mudanças. Mudanças são necessárias para um futuro melhor. É preciso mudar. E só não o fazemos porque não nos permitem.
É triste ver o mundo assim. Se nos dessem a conhecer o mundo onde vamos viver ganhavam mais. Aposto que vou chegar aos 18 anos sem saber sequer depositar um cheque!
Precisamos de tomar medidas. E é por isso que vamos lutar!
Às vezes sinto que os professores não entendem que as coisas têm de mudar, senão nunca vai acontecer nada! Às vezes parece que eles querem fazer-nos passar pelo que passaram... Isso é tão mau! É tão mau não aceitar as mudanças. Mudanças são necessárias para um futuro melhor. É preciso mudar. E só não o fazemos porque não nos permitem.
É triste ver o mundo assim. Se nos dessem a conhecer o mundo onde vamos viver ganhavam mais. Aposto que vou chegar aos 18 anos sem saber sequer depositar um cheque!
Precisamos de tomar medidas. E é por isso que vamos lutar!
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
Por uma escola diferente. Por um mundo melhor. (Sara Rodi
Quando, há três anos, sugeri ao meu filho mais velho que
parasse de se queixar da escola e tomasse nota do que gostava de mudar nela,
recebi um role de sugestões que, desde então, têm norteado a minha “luta” por
uma mudança necessária:
* O excesso de avaliações e exames coloca uma pressão enorme
nos alunos. Não se trabalha para saber, mas para ter boas notas. Sendo que esta
pressão recai também sobre os professores e sobre as escolas (ai os rankings!).
Hoje sabe-se que, sob um stress excessivo, a energia mental é reduzida. O
cérebro aciona todos os seus mecanismos primários de alerta, prejudicando a
apreensão cognitiva. Se pomos uma criança a andar sobre o arame, como queremos
que ela aprenda a tabuada?
* A aprendizagem devia ser mais divertida, com mais jogos,
mais experiências. Os alunos deviam sair mais das escolas e conhecer o mundo
para o qual se estão a preparar. Claro que tudo isto tem custos. Mas grande
parte do problema prende-se ao excesso de matéria que se dá em cada ano. Muitos
professores revelam dificuldade em cumprir o conteúdo programático, e nada é
devidamente aprofundado, experienciado, questionado. Para os testes, é mais
avaliada a capacidade de “decorar” dos alunos do que a sua compreensão
aprofundada e o seu sentido crítico. Como diz o meu filho, “para quê decorar
tanta coisa que não nos interessa nem vai interessar para o nosso dia-a-dia, se
hoje temos o Google?”.
* Passar um dia inteiro sentado a uma secretária a ouvir
alguém a falar (por mais estimulante que seja) é duro. Especialmente duro para
uma criança ou jovem que está numa idade em que precisa de brincar, correr e
saltar. Deixar a escola ao final de um dia inteiro e ainda ter de ir fazer
trabalhos de casa e estudar para os testes, é uma violência. Se até os adultos
ao final do dia sentem necessidade de descansar, porque é que as crianças têm
de continuar a trabalhar? Se é necessário ter as crianças nas escolas,
ocupadas, porque não dar-lhes outras ferramentas que são também fundamentais
para o seu desenvolvimento (e às vezes muito mais do que certas matérias):
artes plásticas, teatro, música, dança, desporto, trabalho sobre as emoções,
filosofia, culinária, cidadania, escrita criativa, línguas, etc, etc, etc?
Porque terão estas atividades de ser remetidas para o final da tarde, quando as
crianças já estão cansadas?
* Todas as crianças são diferentes. Têm talentos e
qualidades. Num sistema de ensino igual para todos até uma idade avançada, há
muito pouco espaço para o desenvolvimento individual dos talentos de cada um. A
aposta (em aulas de apoio e explicações) é sempre naquilo em que os alunos são
mais fracos. Não se aposta naquilo em que o aluno poderia fazer a diferença,
agora e no futuro.
* As turmas são muito grandes, há muito barulho e dispersão,
os professores passam uma boa parte do tempo a ralhar e a aplicar castigos. Se
a maior parte das matérias está na internet, em vídeos e conteúdos bem
explicados, não seria mais produtivo o aluno aprender autonomamente? E depois
aproveitar o tempo com o professor para discutir e aprofundar as matérias,
fazer experiências e trabalhos enriquecedores, beneficiando aí da existência de
vários alunos?
* Se as tecnologias fazem parte do dia-a-dia dos alunos, e
farão parte do seu futuro profissional, porque é que estão tão ausentes na
escola?
Ao conversar abertamente com as
crianças e os jovens, percebemos facilmente que eles não querem
"matar" a escola. Eles entendem a importância da escola. Mas querem
uma escola diferente, que não os deixe entediados, desmotivados e/ou frustrados
dia após dia, durante anos a fio. Querem uma escola que os forme, mas também que
os ajude a serem felizes, livres, curiosos, que os ensine a conhecerem-se, a
conhecerem os outros e a saberem lidar com o mundo à sua volta. Parte deste
trabalho deveria ser feito pelas famílias, é certo. Mas como exigir tanto às
famílias se as crianças passam o dia todo na escola e a escola ainda invade o
espaço com a família, com trabalhos de casa e estudo. Como exigir tanto às
famílias, se os pais trabalham tanto e até tão tarde e não há políticas sociais
e económicas que os apoiem? (e isso daria outro manifesto).
É hora de nós, pais e professores, nos
perguntarmos seriamente para que serve a escola e que tipo de seres humanos
estamos a criar nelas. Este modelo de ensino é uma herança do século XIX, em
que era necessário capacitar futuros trabalhadores para as fábricas,
essencialmente. Se o país e o mundo, neste momento, precisam de trabalhadores
competentes, mas também empreendedores, autónomos, criativos, curiosos, com
sentido crítico, capacidade de entreajuda e preocupados com o mundo que estão a
construir... estará a escola a contribuir para a formação desse tipo de
cidadãos? Se não, o que precisamos de mudar?
Em muitos países o sistema de ensino já
está em mudança. Em várias escolas já não existem aulas, nem currículos
estanques, nem avaliações como a nossas. A autonomia e o respeito pelas
capacidades e interesses individuais da criança e jovem são trabalhados através
de projetos interdisciplinares, com professores que são sobretudo tutores,
mestres para a vida. Em Portugal, há também escolas que alimentam esse sonho e
criam medidas inovadores que fazem toda a diferença na vida dos alunos. Esta
mudança é possível. É necessária. E é urgente. Dela depende a felicidade das
novas gerações. E uma geração feliz, constrói inevitavelmente um mundo melhor.
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