Quem somos


O Mundo transforma-se a uma velocidade estonteante.

Mudou a forma como nos relacionamos, como aprendemos. Não deveria mudar também a forma como ensinamos? Que tipo de cidadãos precisamos de formar para fazer face a um futuro que desconhecemos?

São cada vez mais os professores, pais e alunos que colocam a si próprios estas questões, e sentem no seu dia-a-dia a necessidade de mudança.

Aqui ficam os seus manifestos e relatos de boas práticas...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Por uma Sociedade mais Feliz e Saudável, através da Educação (Cristina Baptista)


Sou mãe, tenho formação médica, sou professora e estudante de Neuroeducação. E sou, paralelamente a tudo isso, uma mulher ativa que quer contribuir para uma sociedade mais feliz e saudável, o que acredito que obrigue a uma intervenção na Educação.

E porquê?

Porque as Crianças revelam uma percentagem elevada de desmotivação, na escola. Apresentam também níveis de isolamento e agressividade preocupantes, condições que dificultam a aprendizagem, o seu sucesso pessoal e, posteriormente, o profissional.
O modelo educativo atual não prepara os alunos para os desafios que o mundo em que vivemos no séc. XXI requer. De acordo com a OCDE, precisamos que os indivíduos tenham, para além do conhecimento específico da sua área, competências como criatividade, pensamento crítico e comunicação, e saibam ainda trabalhar em colaboração.

Neste sentido, o que poderíamos mudar no sistema educativo?

* As crianças são todas diferentes entre si, aprendem de forma diferente e as necessidades de cada escola também  são diferentes, por isso precisamos de autonomia nas escolas e de um ensino adequado a cada perfil de criança. Não podemos ter uma escola igual para todos.

* É preciso haver uma mudança de mentalidade, os professores precisam de novas ferramentas para os desafios de hoje, precisam de conhecer melhor o funcionamento do cérebro, terem conhecimentos da neurociência, a emoção e a razão não podem ser separadas. Não há aprendizagem sem o envolvimento da emoção. Desenvolvermos conteúdos emocionais significa também desenvolvermos o cognitivo.
A emoção, a empatia e o afeto promovem o aproveitamento dos alunos.

* Os alunos deveriam aprender também a comunicar de forma empática, no sentido de se colocar no lugar do outro, respeitar e escutar, saber gerir conflitos e evitar a agressividade. É fundamental para trabalharem num mundo cada vez mais global, para além de facilitar a criação de relações interpessoais com qualidade, que lhes permitam sentirem-se mais felizes e saudáveis. Numa época onde abunda o isolamento e o sentimento de desconexão,  são notórios os efeitos prejudiciais no aproveitamento escolar...

* Os professores precisam de ser criativos para estimular a curiosidade do conhecimento,  e desenvolver  aulas mais interativas onde os alunos possam ser mais participativos e também criativos ou inovadores, onde trabalhem  em equipa para desenvolver mais colaboração. O professor não pode ser o individuo que “despeja” o programa curricular, precisa de desenvolver pensamento crítico, levando os alunos a analisarem, refletirem e escolherem uma estratégia/ ação. Deve ensinar os alunos a pensar e a saber estudar, ou seja, a aprender método de estudo e a saber pesquisar e selecionar  a informação disponível na internet. 
Um aluno não aprende com teoria, precisa de perceber a aplicação do conhecimento que está a adquirir, assim a vivencia e, e com a reflexão dessa vivência, permite-se a integração do conhecimento, sem ser preciso “marrar”.

* O professor, em vez dos clássicos T.P.C. , obrigatórios, com a imagem pesada que a própria palavra lhe dá, motivaria os alunos a fazerem pesquisas.

* Os alunos precisam de tempo livre, precisam de brincar mais ou de ter tempo para socializar mais, há um excesso de carga horária escolar.
Os professores  precisam de sentir que o aprender é também é ou pode ser diversão. Pode parecer paradoxal, mas o lúdico e a vivência são excelentes formas de ensinar melhor. Por oposição, criar um ambiente de tensão ou de stress, pelas endorfinas que liberta e as implicações dessa bioquímica, só dificulta a aprendizagem e o aproveitamento escolar. Pais e professores precisam desta consciência.

* As avaliações não podem apenas avaliar o conhecimento, têm também de avaliar competências tais como a atitude, comunicar, cooperar, a capacidade de inovar, de  analisar pensar e agir.  Essas competências  serão precisas no mundo lá fora para encontrarem novas soluções para um mundo em constante mudança.

Nota: criar um espaço para os alunos aprenderem competências não significa aumentar o número de horas. Existem programas aplicados em muitas escolas em que os conteúdos do programa são leccionados tendo em conta o desenvolvimento destas competências.

Cristina Baptista
Associação Sorrir



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Por um Novo Paradigma na Educação (Madalena Alves)


Como mãe, a minha vida centra-se nos filhos. As preocupações são as mesmas que as de todas as outras mães: queremos as crianças saudáveis, por isso procuramos uma boa alimentação, exercício físico e bom acompanhamento médico. Queremos crianças felizes, por isso procuramos estimular a autoestima, atividades para que descubram as suas vocações, e oportunidades para brincarem, resguardados do mal que anda por fora. Queremos também formar boas pessoas, pessoas competentes, pessoas únicas com capacidades únicas para alimentar a nossa sociedade, e para isso procuramos uma boa educação.

O que é certo é que os alunos de hoje estão desmotivados para a aprendizagem, o ensino não é adequado às necessidades e ao contexto atual, e certamente eles não percebem por que lhes é útil, para além de servir para passar nos exames. Os currículos são tão extensos que não dá para os professores serem professores, para ensinarem, só dá para debitarem matéria sem tempo sequer para tirarem dúvidas. Será que decorar matéria para passar um teste, e seguidamente a esquecer, pois têm de decorar mais matéria para outra disciplina, é razoável? Nós, pais, temos abordagens diferentes para cada filho, mas não damos tempo aos Professores de fazer o mesmo com os seus 30 alunos...
As crianças aprendem ao fazer, ao explorar, ao debater, ao ensinar o próximo. Este sistema atual de ensino dirigido, gera adultos com poucas competências para lidar com a vida, para fazerem eles próprios,  criarem eles próprios. Gera cidadãos que não sabem como participar mais ativamente na vida do país, pois estão habituados a ser espetadores. E gera pessoas frustradas e tristes porque nunca viveram o seu potencial.

Os primeiros anos de vida, e não falo apenas do pré-escolar mas também do primeiro ciclo, deviam estar inteiramente dedicados a ensinar competências, primeiro sócio-afetivas e depois de trabalho em equipa, técnicas de aprendizagem, a busca da autonomia (que não se deve confundir com independência), o autoconhecimento, o gosto pela aprendizagem. Para que é que um aluno nesta idade deve saber o trajeto do bolo alimentar, na sua transformação em quilo e quimo? E avaliamos todo este conhecimento que não serve para nada, e não as competências que vão ser necessárias para o futuro... Desde que decore, está tudo bem. E o que acontece quando esta criança vira adulto e não sabe sequer gerir as suas finanças?
Portugal está cheio de génios que se dão mal naquilo em que lhes obrigamos a ser bons. Li em tempos e concordo: “Temos linhas uniformes, e grades curriculares, a arquitetura da Escola Tradicional imita uma penitenciária. Celas trancadas (salas de aula) e corredores. Ambiente, rotinas e relações institucionalizadas. Um mundo à parte. Não é socialização, de verdade. É um simulacro esquelético de socialização. O recreio equivale ao banho de sol diário dos prisioneiros. Sempre curto demais e barulhento de energia acumulada. Crianças saudáveis vivem a Escola como uma prisão. Em nível sutil, é mais grave: a colonização do corpo e da subjetividade por programas disciplinares funciona como uma prisão invisível, que acompanha a pessoa aonde ela for.”

Quando vamos deixar o ensino dirigido, e passar a métodos amplamente estudados que são infinitamente mais eficazes? Queremos criar uma escola diferente, ao mudarmos o paradigma da educação! Estou certa de que a motivação dos professores aumentará, pois ser-lhes-á devolvido o prestígio e a devida importância na sociedade (são das profissões mais nobres e menos reconhecidas e recompensadas do país); a motivação e autoconfiança das crianças também aumentará, pois passaremos a um ensino de certa forma individualizado e aberto a todo o tipo de vocações; e a sociedade terá profissionais de todos os ramos, mais bem preparados e, por conseguinte, com mais sucesso e maior produtividade. Teremos uma sociedade feliz e a contribuir com toda a sua potencialidade, em vez de pessoas que foram reprimidas toda a vida. 

Por Uma Educação Nova (Maria Paraíba)


A verdadeira e única RESPONSABILIDADE de cada ser humano e de cada pessoa/aluno, é cumprir-se, manifestar-se como SER ÚNICO, consciência única, ligada ao Todo. 
Na escola e no seio familiar, o Ser deve auto-conhecer-se, para poder fazer escolhas que vão de encontro a esta manifestação. 
Por isto, a ESCOLA, deve ser um espaço/contexto de desenvolvimento de competências ligadas à essência de cada um, em que a responsabilidade individual acontece de forma expansiva relativamente a este conhecimento de SI. 
Esta é a ESCOLA que chama por nós: educadores, professores e pais.

Maria Paraíba
Mãe, educadora infantil e facilitadora em meditação

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A Educação pela Arte, e a Urgência de Uma Escola Diferente (Isabel Medina)


Em Outubro de 1974, ano da revolução, comecei a leccionar como professora estagiária de Inglês e Alemão, no então Liceu de Queluz. Com apenas 22 anos deparava-me com um cenário de mudança em que tudo seria possível. O ensino, tal como o conhecera, iria mudar. E estava nas nossas mãos fazê-lo. A escola tradicional, herdada do séculos XVIII e XIX, as carteiras alinhadas frente ao professor, a escuta passiva, o decorar sem saber para quê, o “autismo” a que éramos relegados, a pressão que nos impedia de crescer, tudo iria mudar. Entusiasmada, mergulhava nas novas pedagogias, descobria novos caminhos, experimentava abordagens motivadoras que permitissem desenvolver a imaginação, a criatividade, a responsabilidade. Porque o Teatro fazia já parte da minha vida, nele encontrei técnicas que aplicava nas aulas, permitindo que os alunos sentissem a necessidade de aprender e desenvolver o seu conhecimento das línguas para melhor poderem participar. O facto de o poder fazer enquanto estagiária e, no ano seguinte, como orientadora de estágio, foi marcante. Tinha tempo, tinha condições, e um grupo de professores confiante e empenhado.
E foi durante esses dois anos que cresceu em mim a vontade de me dedicar à aplicação de técnicas teatrais e de jogo dramático no Ensino. Ao tempo, um grupo de professores ingleses (English Teaching Theatre) apresentava um espetáculo de curtos sketches cómicos para o ensino do Inglês que funcionava como motivação para o ensino da língua. Os resultados eram muito eficazes. Conversando com eles apercebi-me de que este tipo de experiências eram já bastante recorrentes em vários países, com resultados muito positivos.
Em Portugal, a Fundação Calouste Gulbenkian, através do seu Centro de Investigação Pedagógica, desenvolvia desde meados do século XX e com a participação de brilhantes pedagogos, entre eles o Prof. Arquimedes da Silva Santos, estudos em torno da psicologia da criança e da sua relação com as artes, que levaram aos princípios orientadores da Educação pela Arte, curso ministrado no Conservatório Nacional. Frequentei o curso, e em 1976 apresentei ao Ministério da Educação a proposta de formação do Gabinete de Comunicação e Teatro, constituído por um grupo multidisciplinar de professores que, para cada disciplina, desenvolvia um conjunto de exercícios e jogos de aprendizagem, com base em técnicas teatrais e jogo dramático. Para além de oficinas práticas tanto para professores como para alunos, de carácter mais didático, existia um seminário abrangente com o propósito de despertar e desenvolver o indivíduo em todas as suas potencialidades, privilegiando a imaginação, a liberdade, o foco, o poder da palavra, a co-criação através de várias formas artísticas. Este seminário encerrava com uma grande improvisação pelos participantes, seguida de um espetáculo apresentado pelos orientadores.
Projeto aceite depois de muitas peripécias, deu-se início em 1977 ao núcleo base do gabinete: apenas foram autorizadas formações para as disciplinas de Português e Inglês. Com muita resiliência e empenho, e com resultados surpreendentes em turmas-piloto que acompanhávamos, o projeto foi expandindo até que, em 1980, o Gabinete de Comunicação e Teatro conheceu finalmente  o seu formato original. Não é este o momento de escrever sobre o impacto e os resultados obtidos. Sim, foram excelentes, com turmas-piloto a provarem-no, com o Conselho da Europa a não só validá-lo como a indicá-lo como uma das experiências mais inovadoras e bem-sucedidas realizadas no âmbito europeu. Experiência que foi replicada noutros países e… continuada. Em 1988 o Gabinete de Comunicação foi considerado um “luxo” pedagógico que o Ministério não podia continuar a apoiar. Em 1989 foi extinto, por minha vontade, já que seria a única professora a continuar agregada ao Ministério da Educação, depois de anos a tentar que os nossos relatórios e sucessos alcançados se vissem minimamente refletidos nas várias reformas do ensino que, entretanto, aconteceram.
Fui buscar a minha experiência, em primeiro lugar porque só sei falar daquilo que realmente vivi, e em segundo, e mais importante, para que possamos perceber que, desde o início do século XX, pedagogos reconhecem a ineficácia de um sistema de ensino saído da revolução industrial e pensado para uma determinada época. Sabiam eles e sabemos nós que apenas um desenvolvimento global de todas as valências de um ser humano podem contribuir para um saudável desenvolvimento da criança, e para as aprendizagens que a sociedade lhe oferece. Sabiam eles e sabemos nós que todos somos diferentes, que as padronizações se fazem por condicionantes físicas, financeiras, culturais, sociais, políticas, mas que cada indivíduo se pode demarcar dessas condicionantes se lhe for possível o acesso à sua verdadeira identidade, livre de medos, de ansiedades, de constrangimentos, de preconceitos. Livres interiormente, abertos a novos conhecimentos, responsáveis e seguros, são esses os seres humanos que queremos ver crescer. Para isso a Escola tem de mudar. E se os responsáveis, os que investem e acreditam num ensino diferente não conseguem fazer-se ouvir, então a questão é política. O Poder não quer sociedades felizes, responsáveis, livres? O Poder prefere criar fantoches manipuláveis?
Ao escrever as últimas linhas do parágrafo anterior, disse para mim própria: basta! Toda a minha vida, o Poder, a vontade política, etc, foram os monstros sem rosto que tive de enfrentar. Os rostos que me diziam “não é possível mudar”, eram os rostos do medo, os rostos dos sem-rosto, dos que aceitam o que lhes parece inevitável, porque são essas as “diretivas”. Os que me diziam “ainda não é altura, é preciso tempo…” eram as crianças formatadas que ocupavam agora os lugares pelos quais tinham sofrido nas cadeiras da escola.
Mas os tempos mudaram. Mudaram muito e continuam a mudar a grande velocidade. Somos muitos os que sabem que sim, é tempo. Não podemos continuar a lobotomia de seres maravilhosos. Não podemos permitir que as nossas crianças a quem, na infância, tantas vezes reconhecemos talentos e capacidades, sejam transformadas em mais um número no mercado de trabalho. Quantas vezes se ouve dizer: “prometia tanto em miúdo…”, “perdeu-se completamente, o que terá acontecido?”. E, se formos a ver o que aconteceu, damos connosco a não compreender. Pois… Se até teve uma vida tão boa… Mas houve a Escola pelo meio, não?
O Ensino pode ser o grande demolidor ou o grande construtor. Sabemos como pode ser construtor. E sabemos como pode ser demolidor. Se o Poder não quer, se a vontade política não é essa, qual a solução? Há escolas onde novos conteúdos estão a ser implementados, onde o desenvolvimento transpessoal e o ensino pelas artes têm a primazia. Dizem pais e pedagogos que não serve para os exames, mas que correm o risco. O ensino público servia o mercado de trabalho. Já não serve. A imaginação, a responsabilidade, o entusiasmo, o propósito, o seguir o que mais gostamos, o termos respeito por nós próprios, levou milhares a co-criarem o seu próprio emprego. Assim surgem, a cada dia, novas perspectivas, propostas diferentes. Não estarão muito melhor preparadas para esses desafios, as crianças que frequentam agora as escolas alternativas que o Estado não reconhece? E, acima de tudo, não serão mais felizes?
Enquanto nada é feito pelos governantes, mudemos nós, agora. Pelo bem-estar de futuras gerações. Por um mundo melhor.

Isabel Medina
05/01/2017

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Por Uma Escola Diferente, Pela Defesa dos Direitos das Crianças (Inês Neves)


Manifesto
Por uma Escola Diferente, pela defesa dos Direitos das Crianças

A Declaração Universal dos Direitos da Criança e a Convenção sobre os Direitos da Criança (ratificada pelo Estado Português em 1990), representam um vínculo jurídico para os diversos países. Defendem o interesse superior da Criança como “a diretriz prioritária em todas as decisões que lhe digam respeito para a sua educação e orientação. Esta responsabilidade cabe, em primeiro lugar, aos pais”. Segundo os documentos, a Criança terá “ampla oportunidade de brincar e divertir-se e a sociedade e as autoridades públicas empenhar-se-ão em promover o gozo deste direito”.
Não obstante, a que se assiste na realidade, na sociedade e no ensino público em Portugal? Ao sacrifício dos seus interesses superiores de forma a facilitar interesses administrativos, económicos e burocráticos, de agrupamentos, de empresas, de Ministérios...
Terão os alunos do 1º ciclo “ampla oportunidade de brincar e divertir-se” com horários letivos semanais de 25 e 27 horas? Acrescidos, para a maioria, de atividades extracurriculares? Acrescidos ainda, para muitas, de horas no CAF, cujos pais não têm flexibilidade horária laboral, como acontece noutros países da Europa? Para Crianças entre os 5/6 e os 10 anos, não seria ideal apenas uma manhã de aulas?
Será do interesse superior da Criança exigir-lhe concentração durante 90 ou 120 minutos seguidos (tendo em conta que uma aula, no ensino superior, tem a mesma duração)? Serão suficientes os intervalos de 10 ou 15 minutos no 2º e 3º ciclos?
Será do interesse superior da Criança, entre os 6 e os 10 anos, ter dias com 8h e 30 minutos de aulas, quando um adulto trabalha 8h por dia? Não será claramente inaceitável que esta situação exista e que se repita um pouco por todo o país, com a permissão de toda a comunidade educativa, por força de constrangimentos administrativos? Propicia-se o insucesso escolar e desrespeita-se o desenvolvimento harmonioso, a saúde física, emocional e familiar, ao mesmo tempo que se ignora a Lei de Bases do Sistema Educativo. Se há educadores que se insurgem, são uma minoria tão insignificante que ninguém lhes dá ouvidos, uma vez que a maioria aceita sem questionar.
Terão as Crianças assegurado o seu direito à segurança quando há uma grave falta de funcionários em grande parte das escolas do país?
Em que momento esta sociedade se demitiu de proteger os pequenos seres humanos que tem a seu cargo, deixando que aspetos tão cruciais para o seu bom desenvolvimento sejam decididos segundo interesses de terceiros? Defender a integridade física e psicológica da Criança é construir uma sociedade harmoniosa e equilibrada, e esse dever não pode sobrepor-se a nenhum outro. Se a tal não nos obrigar a nossa consciência, então que seja a lei, ou será que nem mesmo esta?
Respeitar os Direitos da Criança passa por criar um Ensino mais humano e seguro, com profissionais e decisores realistas, dotados de empatia e de uma bagagem mínima de psicologia infantil e do desenvolvimento. É fundamental criar métodos de ensino libertadores, ter em conta os tempos limites de concentração, a maturidade intelectual na escolha de currículos, a singularidade de cada aluno.
Para além disso, é urgente fazer leis que permitam à família o acompanhamento afetivo fundamental, que só ela pode dar.
Mais importante ainda, é absolutamente essencial acordarmos desta grave permissividade coletiva. Que a sociedade perceba que deve questionar com consciência, lutar por aquilo que considera justo e educar com o coração.

Inês Neves

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Por Uma Escola mais Interativa (Madalena)

Acho que estamos a desenvolver cada vez mais Alunos que não gostam das aulas devido à falta de interação que existe por parte do Professor e do Aluno. A forma como nos ensinam é aborrecida e aprender torna-se uma seca para nós.
Nós não conseguimos demonstrar a nossa inteligência apenas através dos testes que nos fazem, das datas e de tudo o que há nos livros que somos obrigados a decorar.
Todos os alunos têm ritmos diferentes de aprendizagem, o que quer dizer que nem todos conseguem decorar o livro e dizerem tudo o que sabem fazendo um teste, e outros conseguem fazer o teste apenas a ouvir as explicações, sem estudar e ter uma excelente nota. Significa que a maneira de cada um de nós aprender é diferente.
As aulas deviam ser mais interativas e não passarmos 50, 80, 90 minutos a ouvir, escrever e fazer exercícios. Se as aulas fossem interativas, nós ficaríamos com mais vontade de aprender e não aprendíamos de uma forma tão aborrecida. Os Professores preocupam-se essencialmente em dar matéria num x tempo e por vezes sinto que não se preocupam se nesse tempo vamos conseguir aprender tudo em aulas em que eles apenas falam, falam, falam...
Há semanas em que chegamos a ter 4 testes por semana, mais apresentações orais, mais trabalhos de casa e não temos tempo para estar com a família ou para fazer atividades que nos ajudem a descontrair do ambiente da escola. No fundo, é como se tivéssemos uma continuação da escola mas em casa, onde nos matamos a estudar resumos de imensas páginas para conseguirmos ter uma boa nota. Caso contrário, se não temos boa nota os professores acham que não sabemos nada...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Por Uma Escola com Espaços para Brincar e Maior Ligação às Famílias (Rita)

Quando penso no futuro da minha filha, no que diz respeito à escola, não me sinto muito animada. Sei que entre as gerações a forma de ensino muda, e longe vão os tempos das reguadas e do recitar matéria diante de toda a classe, sob o olhar rígido do professor, mas, curiosamente, no que parecia ser uma evolução entre a geração dos meus pais e a minha, deixou de o ser da minha geração para a da minha filha. Não houve um retrocesso a nível de castigos ou de austeridade, mas pelo que percebo há hoje um nível de exigência que, além de não se justificar, prejudica as dinâmicas familiares e o tempo pais-filhos. Felizmente, parece que começa a surgir agora alguma abertura da parte de quem "manda" no ensino e espero que uma mudança de mentalidade e da forma de fazer as coisas, aprendendo com casos de sucesso de outros países e também inovando, se venha a refletir já nesta nova geração.

Não me posso pronunciar sobre o ensino no geral, porque a minha filha está agora no 1º ano... Da experiência até agora, uma das coisas que me preocupava, os TPC, não existe no agrupamento da escola que ela frequenta, e parece-me que a professora da minha filha tem uma forma de ensino que acompanha de certa forma o trabalho feito no pré-escolar, onde ela já trabalhava letras e números de forma lúdica. Sempre que ela aprende uma letra nova, chega a casa a cantar uma música sobre essa letra, e quando desenha faz logo por incluir letras ou palavras no desenho. Não sei se vai ser assim até ao 4º ano (uma etapa de cada vez), mas gostava de continuar a vê-la com "vontade de aprender", e não de "sentir o peso de ter de aprender".

No que diz respeito ao que eu gostava de melhorar na escola da minha filha, não posso deixar de mencionar a creche onde ela esteve. Nessa instituição, que não é "alternativa", sempre houve uma ligação à família. Sim, era a minha filha, mas qualquer educadora, auxiliar, funcionário, diretora... fosse quem fosse, sabia o nome da minha filha e reconhecia a família dela (e há que frisar que estou a falar de uma instituição grande, com muitos meninos). As educadoras, em cada sala por onde passou, fizeram por conhecer o ambiente familiar e partilhar com a família como ela vivia o ambiente da escola. Criaram-se laços que sei que tiveram um impacto positivo na formação dela enquanto pessoa, porque ela não sentiu uma barreira de "na escola faz-se assim/na escola faz-se de outra maneira". Além disso, é uma instituição que se tornou uma eco-escola.

Quando chegou à escola nova, a minha filha já sabia que ia brincar menos e estar mais tempo sentada... O que eu não estava à espera era de não haver sequer equipamento no exterior para ela brincar, a ponto de ela me pedir para ir ao parque ao fim de semana para poder fazer algo tão simples como andar de baloiço, algo que ela fez diariamente até mudar de escola. Como é que houve uma preocupação em renovar os edifícios das escolas adequando-os aos novos métodos de ensino (com recurso a tecnologias, por exemplo), mas descuraram o exterior, tendo em conta que as crianças agora quase são obrigadas (senão pelas regras do agrupamento, então pelos horários dos pais) a ficar um dia inteiro na escola? E tenho noção de que já é uma sorte ela ter uma escola com tão boas condições...
O segundo impacto foi "a mãe deixa a filha no portão e se precisar de falar com a professora tem de marcar hora". Fiquei chocada... Eu enquanto mãe não posso contribuir para a escola da minha filha? Ela tem de sentir que há um espaço na vida dela onde eu não estou autorizada a entrar? Por sorte, este primeiro impacto, para o qual já me haviam alertado, foi amenizado pela postura da professora, que facultou o e-mail e tem até a amabilidade de fotografar as atividades e enviar aos pais. Eu sei que a segurança é importante, e que a falta de pessoal nas escolas faz com que tenham de ser mais fechadas para as poder controlar, mas será que não pode haver um meio-termo instituído, sem dependermos unicamente da simpatia, boa vontade e visão de um professor?
E por fim, uma última nota: e o ambiente? Surpreende-me não ser obrigatório que as escolas básicas façam reciclagem, quando até as creches já o fazem!

Por uma Escola Diferente Para Cada Um (Catarina Delgado)


POR UMA ESCOLA DIFERENTE
Uma escola igual para todos?
Não. Uma escola diferente para cada um.
Uma escola em que cada um possa expressar-se individualmente, ser respeitado na diferença, ouvido em liberdade e aprenda com curiosidade.
Onde os talentos de cada um sejam uma mais-valia para as aprendizagens de todos… Alunos, professores, outros funcionários, pais.
Em que todos sejam livres de dizer o que pensam e que esse contributo possa servir a comunidade.
Uma escola sem trabalhos de casa… Quando aprendemos uma coisa ela fica em nós, não precisamos de treinar exaustivamente. Melhor aprendizagem traz menor necessidade de treino…
Instigando a curiosidade… O que importa são as aprendizagens e o prazer da descoberta e do conhecimento. Aprendendo a brincar e brincar para aprender. A brincadeira livre, sem condicionamento dos adultos, é essencial para a aprendizagem e a autonomia.
Desejo que todos os pais possam um dia ouvir o que o meu filho já me disse:
“Catarina, tu ias gostar de andar na minha escola…”

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A Voz dos Meus Filhos (Isabel Costa)

O meu filho tem quase 18 anos e sempre se queixou de "aborrecimento" nas aulas. Diz que não o motivam, nem para estudar, nem para a vida ativa... Não sabe o que quer fazer profissionalmente, ainda ninguém o despertou para isso. Respondo-lhe que tem de ir para algo de que ele gosta mesmo, mas ele replica: "o problema é que eu não sei o que gosto, nunca tive a oportunidade de experimentar nada!!!" E ele tem toda a razão. "Só podes aguentar"- disse-lhe - "até porque já estás quase a acabar e depois logo hás-de descobrir..."


Depois de ler sobre os debates atuais, sobre o Ensino, perguntei-lhe então como é que veria a Escola e as suas primeiras sugestões foram:
 - Menos horas de aulas: "certas aulas são uma seca, principalmente quando temos dois tempos a História, por exemplo".
- Aulas de manhã e à tarde atividades: desporto para quem tiver jeito para isso, aprender a cozinhar, a cultivar... Para quem tiver ambição para a área da saúde, visitar hospitais; para quem tiver vocação para animais, visitar veterinárias e jardins zoológicos; para quem gostar de carros, ir aos mecânicos; quem gostasse de pastelaria, passaria uma tarde com um padeiro... "Assim teríamos uma ideia da vida profissional lá fora e poderíamos ter a certeza de que é isto que gostaríamos de fazer, ou não..." 
Ou seja uma escola mais ativa e sem mais testes.
 A minha filha este período queixou-se da quantidades excessiva de testes: 17!!! Que horror... Ela disse que os professores dão as aulas a correr porque o programa é muito extenso, que eles próprios queixam-se de que não têm tempo de dar a matéria toda se tiverem que estar sempre a explicar, que ela passa a vida a aprender de cor para os testes, que não é motivador... E que não faz mais nada do que decorar para os testes...

Como mãe proponho também: meditação, foco no objetivo, yoga do riso e outras terapias alternativas, essenciais para o bem mental e emocional das crianças e jovens adultos. Pois a vida é cheia de desafios e saber lidar com eles, gerindo a suas emoções e stress, logo de pequenos, é algo de muito valioso para o futuro profissional dos nossos filhos.
Também não estou a favor dos TPC e dos testes, que tiram o pouco tempo disponível para algo mais ativo e alegre. Temos que criar competitores mas não competitores entres eles (onde o que tem melhor memória vence e esmaga os outros), mas competitores com eles próprios, descobrindo a sua vocação nata e indo assim conseguindo fazer sempre melhor, sabendo que, se trabalharem, conseguirão realizar todos os seus sonhos...

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O que Vejo no Ensino de Hoje (Mafalda Lira)

Há 15 anos comecei o meu percurso pelo ensino, leccionando Matemática ao 10º e 11º anos. Fiz carreira académica, fui investigadora e professora muitos anos no ensino superior na UL e no Politécnico de Lisboa. Nessa passagem cheguei até a dar aulas ao curso de Educação, onde leccionei a cadeira de Probabilidades e Estatística de professores de 1º ciclo e educadores de infância.
Voltei por motivos pessoais ao ensino básico e secundário. Já leccionei do 5º ao 12º ano, o que me permite ter uma visão mais abrangente do ensino. E agora, 15 anos depois, vejo:
- escola burocratizada: uma escola em que há papéis a circular por todo o lado, onde o processo tem processos para tudo, reuniões obrigatórias muitas vezes sem sentido, papéis e papéis que são elaborados para uma inspecção e que a meu ver sem mais utilidade; há nomenclatura para tudo: PEI, PAPI... Quem esteve "fora" 15 anos sente-se um ET em terra!
- uma preocupação exacerbada com alunos NEE (necessidades educativas especiais), a meu ver um abuso de ritalinas;
- Metas curriculares: onde se abordam assuntos descoordenados por ano, desemparelhados da realidade e da idade (por vezes os alunos ainda não têm maturidade cognitiva para os assimilar); não se percebe a razão das razões!
- professores desmotivados, sem tempo para preparar aulas; exaustos com processos de avaliação e com a escola burocratizada; exaustos com a desmotivação dos alunos e sobretudo com a indisciplina, a meu entender, o monstro maior a combater! Professores que não concordam muitas vezes com os assuntos leccionados, com a forma e tempo que têm para os abordar; professores que para o serem têm que optar por ter vida pessoal e profissional e, mesmo assim, têm que encontrar motivação para o fazer.
- alunos saturados e alheios ao que aprendem, alunos que sentem que os programas são desadequados à sua realidade, muitas vezes inúteis. A linha que separa essa desmotivação para a falta de respeito nas aulas também é muito estreita. Hoje olhei para a minha aula e, apesar do esforço, não vi gosto, não vi motivação, vi um presente vivido na obrigação de estar aqui, até ao toque...
- pais e tutores: há pais que vivem a vida dos filhos e que, de tanto os protegerem não os deixam ser, nem os preparam para serem! Na oposição, outros pais que, pela sociedade frenética que criámos, não têm tempo para os filhos, para as regras e receiam o “Não”! Estes também não os preparam para a vida, para as adversidades. É importante, em casa, prepararmos os nossos filhos para a escola, nós pais somos os principais educadores e não podemos desresponsabilizar-nos disso!

E falamos tanto do ensino da Finlândia... estamos a comparar o incomparável. Uma sociedade mais fria mas que respeita normas, onde o professor não tem que impor disciplina constantemente porque ela está naturalmente presente na sociedade. Onde os alunos têm liberdade e confrontam a realidade e são motivados pelo gosto de aprender. Onde as turmas não têm 30 alunos e, por isso, podem trabalhar em projectos. Onde os professores têm um salário digno, não têm confrontada a sua vida pessoal com profissional e são naturalmente respeitados pela profissão nobre que escolheram. Não há metas e burocracias, programas obrigatórios a cumprir... há um despertar para o conhecimento.
Há liberdade para aprender, mas não se confunda liberdade com libertinagem e autoridade com autoritarismo.
A escola pode ser tudo se todos mudarmos um pouco... Mas nem tudo é mau, somos um povo com calor, que abraça, que canta o fado e que vive! Não queiramos ser como os outros, queiramos ser autênticos e, com a educação, comecemos cada um de nós, agentes da educação, por promover a mudança sem perder a nossa essência.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Por uma escola diferente, com filosofia e gosto pelo pensar (Joana Rita Sousa)

Desde que me lembro que a escola faz parte da minha vida. Com três anos de diferença do meu irmão, mais velho, lembro-me de querer sempre acompanhá-lo nos trabalho. Sou do tempo em que não havia jardim de infância e as crianças ficavam com a família, até à idade escolar. 
A minha mãe conta que comprou um caderno só para mim e que eu imitava aquilo que o mano fazia. A verdadeira "macaquinha de imitação".
Quando entrei na escola já sabia algumas coisas. Nunca houve pressa para me ensinar nada, cá em casa. Mas eu via e aprendia com o mano, de forma natural. Ir para a escola era algo que eu aguardava muito. Ia ser a minha vez de trazer trabalhos para casa. Foi uma aventura. E um desalento. 
Não compreendia por que é que os meninos demoravam tanto tempo a aprender as coisas. "Tantos dias para aprender o a!" - eram coisas destas que a minha mãe ouvia, quando eu chegava. Tive que aprender a esperar (algo que ainda hoje estou a aprender, confesso). E tinha um caderno cá em casa, só para casa, para treinar coisas que eu já sabia e que os meus colegas ainda não tinham aprendido. É que o mano continuava a estudar, uns anos "mais à frente" e eu, curiosa como sou, não resistia a acompanhá-lo nos estudos. E a professora não gostava muito que eu avançasse nas coisas. Eu avançava, sim, mas só em casa.
Apesar de tudo, nunca deixei a escola. Estudei filosofia na universidade e continuo, até hoje, a estudar. Preciso da escola para me disciplinar na investigação, para cumprir objectivos. Além disso, trabalho em escolas. 
Trabalho na área da filosofia para crianças e é com muito gosto que levo a filosofia para dentro do jardim de infância ou das salas do 1º ciclo. O gosto é ainda maior quando são os educadores de infância e até mesmo os pais que solicitam a minha intervenção. 
É maravilhoso ver os mais pequenos a descobrir as maravilhas do pensar, o lado lúdico das ideias e o espanto - aquilo que é tão próprio dos filósofos.
O que não é tão maravilhoso é ver como as escolas precisam tanto de mudar o seu olhar sobre a criança. Há muitos anos que se fala em mudança, em assertividade, em inteligência emocional, em criatividade, em "mais atenção à criança e às suas necessidades", em escolas inclusivas e outras coisas que tais. Mas o facto é que ainda há escolas onde o acesso ao 1º andar só acontece através de umas escadas horríveis. O facto é que há escolas construídas com uma acústica péssima que torna impossível ter uma aula com a porta aberta. Há escolas onde as cadeiras são tão desconfortáveis que nem percebo como é possível estar sentado ali durante mais do que uma hora. As salas continuam com a configuração habitual: filas de mesas e cadeiras. E só vemos as nucas uns dos outros. E o rosto? Trabalha-se para o aluno médio e ficam de fora os alunos que "o sistema" identifica como lentos ou demasiado espertos. Depois há as concepções de "portar bem" e "portar mal" - que tantas vezes são medidas de acordo com a capacidade que o aluno tem em ficar ou não calado e quieto. 
Temos um professor ou educador para vinte e oito alunos - o que é violento, para ambas as partes. Há escolas com quatrocentos alunos e quatro assistentes operacionais para toda a escola. 
Isto acontece agora, enquanto eu escrevo estas palavras. 
Por tudo isto - e algumas coisas mais - fico muito emocionada quando vejo  pais, educadores, professores e assistentes operacionais a "fazer magia" com os recursos que têm. E ainda se consegue fazer magia. É esgotante, é um constante lutar contra a maré. Mas consegue-se.

Trabalhar por uma escola diferente significa olhar para os exemplos que nos chegam de fora - e de dentro. Escola da Ponte, Casa da Árvore (em Leiria) ou o agrupamento de escolas gerido pelo professor Adelino Calado. Temos exemplos que nos mostram que é possível pensar, desejar e fazer acontecer uma escola diferente, mais ajustada às crianças dos dias de hoje, às necessidades de aprendizagem diversificadas que cada um apresenta. É possível o verdadeiro trabalho interdisciplinar: psicólogos, professores, educadores, pais, família, profissionais do ATL (actividades de tempos livres) ou das AEC (actividades extra-curriculares / de enriquecimento curricular). 

E se é possível, só temos que "contaminar" os locais por onde passamos. Cada um de nós. Fazer a diferença na vida das crianças com quem trabalhos.

Há uns anos trabalhei numa escola do 1º ciclo, como técnica de AEC. Era conhecida pela "professora que não gostava de ser tratada como professora". Cedo comecei a perceber que os alunos não sabiam os nome dos professores, com excepção do professor titular. No final do ano, quando perguntavam a um dos alunos quem tinham sido os seus professores, o pequeno Manuel (nome fictício) , do alto dos seus 7 anos, respondeu: "Era a professora Andreia [nome fictício para a professora titular], a teacher [professora de inglês], a professora de expressões, o professor de educação física e a Joana." 

É fundamental não perder a esperança e não baixar os braços. No meu caso específico, há que persistir neste trabalho que consiste em alimentar o pensamento crítico e criativo da criançada com quem tenho o privilégio de me sentar para filosofar. Para mim, a filosofia deverá estar nas escolas desde cedo. Desde os 3 anos, no jardim de infância. O trabalho do filósofo tem que ter uma componente pedagógica relevante e deverá ser realizado em equipa com os educadores e professores de cada turma, de cada aluno. Se isso sempre acontece? Não. Tenho tido a felicidade de trabalhar em parceria com educadores e professores interessados - e outros que nem por isso. Foco-me no trabalho com os primeiros e tento fazer o melhor possível com estes últimos.

Todos os dias trabalho por uma escola diferente, com filosofia e gosto pelo pensar. Por falar nisso, tenho algumas aulas para planear. E um jogo que prometi a uma turma, em que pudéssemos brincar ao "whatsapp" e usar a filosofia. Meti-me em trabalhos, está visto. Mas daqueles trabalhos bons, em que sou chamada a pensar e a criar. Porquê? Por que os meus alunos me desafiam, todos os dias. 



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Manifesto Anti-Trabalhos Para Casa (Rita Alves)

Manisfesto Anti-Trabalhos Para Casa
Para começar este manifesto devo apresentar-me: sou “professora do 1º ciclo” e mãe de um Guerreiro de Voz Branca com 5 anos e que entrou este ano para o 1º ano.
Porquê este Manifesto? Porque quero deixar público o testemunho da minha posição Anti-Trabalhos Para Casa, enquanto “professora” (prefiro o termo Educador), mãe e cidadã.

Para que serve este Manifesto? Para soltar  a minha opinião, para saber a vossa, para agregar algumas vozes, para reflectir.
Os meus ex-alunos e ex-encarregados de educação já me criticaram, já me amaram e odiaram por causa da minha atitude em relação aos TPC. Até agora a minha posição era construída com base na minha identidade profissional, neste momento de vida, ela passa a ser coadjuvada com a identidade materna!
Qual o principal intuito de um Trabalho Para Casa?
Treino; consolidação; organização; elo de ligação entre a vida da escola e da família.
Manifesto-me
Manifesto-me contra os TPC que não constroem conhecimento, curiosidade, vontade de aprender.
Manifesto-me contra TPC no 1º ano de escolaridade para desenhar números ou letras. Dêem-nos desenhos para fazer, desafios e descobertas para que eu, mesmo em tempo de fim-de-semana, continue com vontade de ir à escola.
Manifesto-me contra os TPC que exigem a presença de um adulto ao lado da criança. Os TPC têm origem na sala de aula, quando chegam a casa os meus encarregados de educação perderam 8 horas de matéria, e todas as suas opiniões podem estar desadequadas em relação ao que me foi transmitido.
Manifesto-me contra um manual de TPC. A minha casa é diferente da vossa, e é impossível fazer sentido o mesmo trabalho para ti e para mim.

Manifesto-me contra os TPC que me desorganizem, que me gerem confusão, frustração.
Manifesto-me contra a quantidade de TPC. A menos que haja trabalho em atraso (e mesmo assim, deverá ser construído um espaço na aula para o fazer) a quantidade de TPC é assustadoramente anormal. Não quero sentir que me despejam matéria e eu depois que continue o trabalho em casa.
Manifesto-me contra TPC, a menos que estes possam construir uma boa relação com a minha casa e família. Exijam-me que me contem apenas uma história à noite, num sítio confortável, sem confusão e que estejamos verdadeiramente juntos e com Tempo.
Manifesto-me contra os TPC porque já cumpri, no mínimo, 8 horas de trabalho. Qualquer pessoa tem o sonho de sair do seu local de trabalho e desligar a sua mente do lado profissional. Quando levamos trabalho para casa ficamos irritados,  a achar que dois dias de folga não são nada e que não parámos. Porque me colocam nesta posição?
Manifesto-me contra tantos TPC e tantas outras Torturas Para Crianças de que os professores tanto gostam de aplicar, como que num gesto de competência académica, e que tantos pais gostam de receber para manter os seus filhos sossegados durante uma hora (pelo menos).
Manifesto-me contra os TPC. Na minha casa tenho de contar a história do meu dia (organização do pensamento, língua portuguesa, matemática, estudo meio, prazer, etc.); aprender a organizar os meus brinquedos (matemática, etc.); jogar jogos de tabuleiro (matemática, língua portuguesa, concentração, etc.); inventar novas brincadeiras (língua portuguesa, matemática, estudo do meio, expressões artísticas, expressão físico-motora); sentar-me ao colo da minha avó/tia/prima/mãe/pai/madrinha e pedir-lhe mimo (prazer, amor, etc.); passear o meu cão na rua (estudo do meio, expressão físico-motora, etc.); brincar livremente (aprender as regras da vida); tomar banho (aprender a cuidar de mim); arrumar o meu quarto (matemática, língua portuguesa, etc.); preparar a mesa para o jantar (matemática, etc.); participar nas conversas à mesa (prazer, amor, etc.); fazer a minha higiene antes de deitar (cuidar de mim, etc.); ouvir uma história antes de dormir (prazer, amor, literacia, língua portuguesa, etc.) e descansar. Não será tudo isto um verdadeiro Trabalho Para Casa?!
 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Manifesto de uma Mãe (Sónia Henriques)


POR UMA ESCOLA DIFERENTE

Uma Escola onde os Alunos são acolhidos diariamente com alegria, com vontade, com satisfação
Uma Escola onde nos apeteça chegar de manhã
Uma Escola onde chegar nos dá borboletas na barriga
Uma Escola onde aprender possa ser mais do que o debitar de saberes escolásticos, normativizados, que possa ser dialética e desafiante
Uma Escola sem religião, sem raça, só de meninas e meninos
Uma Escola onde aprender também possa ser brincar
Uma Escola onde se aprenda fazendo, “pondo as mãos na massa”
Uma Escola onde se aprende que “as mãos fazem coisas”
Uma Escola onde os princípios e os valores, mais do que cartazes afixados em paredes, possam ser praticados diariamente, por Todos
Uma Escola onde em vez de TPC haja desafios
Uma Escola onde conhecemos os nossos vizinhos
Uma Escola onde possamos desenvolver projetos que aplicam as frases dos tais cartazes
Uma Escola onde amabilidade, gentileza, alegria não são só letras de canções para cantar aos pais nos saraus do final do ano
Uma Escola onde sempre que o sol espreita podemos ter aulas ao ar livre
Uma Escola onde as fronteiras entre salas e recreios não existam de forma delineada, no escorrega do pátio aprendem-se princípios tão válidos como dentro da sala sentado numa cadeira
Uma Escola onde os Professores venham ao pátio “ensinar” os meninos a brincar e aprendam também eles, Professores, a brincar
Uma Escola onde a chuva não tem que nos fazer recolher sempre ao interior
Uma Escola onde se plante na horta parte daquilo que podemos comer à mesa do refeitório
Uma Escola onde se possam fazer picnics, sempre que nos apetecer
Uma Escola onde podemos descansar, ler livros, tocar música debaixo de uma árvore
Uma Escola onde a sombra da árvore possa implicar levar com a laranja na cabeça
Uma Escola onde em dias de chuva de estrelas, nos convidem a ficar até mais tarde para nos ensinarem a vê-las
Uma Escola onde todos possam contar as suas histórias
Uma Escola onde se aprende que todos juntos vamos mais longe
Uma Escola onde não nos rimos de ti, rimo-nos todos juntos
Uma Escola onde a Equidade é tão importante como a Igualdade
Uma Escola onde os ritmos de cada um são respeitados
Uma Escola onde conhecemos o nosso Planeta, e aprendemos a respeitá-lo
Uma Escola onde conhecemos os animais e os respeitamos, onde até os podemos levar connosco
Uma Escola onde quando um colega cai vamos todos levantá-lo
Uma Escola onde aceitamos duas mães, dois pais, uma mãe, um pai, uma avó, etc, onde sabemos que o importante é o amor
Uma Escola onde não haja necessidade de um Estatuto do Aluno
Uma Escola onde nos conhecemos tão bem, que, quando um de nós está triste todos percebemos, todos ajudamos
Uma Escola onde todos somos responsáveis pelo espaço, por limpá-lo e mantê-lo arrumado
Uma Escola onde os castigos são substituídos por meditação e técnicas de relaxamento
Uma Escola onde os nomes das funções dos que lá trabalham pouco importam se implicarem faltas de respeito, onde cada um vale pelo seu nome
Uma Escola onde se exige respeito aos Alunos, mas se respeitam os Alunos também, onde há reciprocidade, onde não te grito, porque a minha autoridade não advém nem da minha altura, nem do meu estatuto, mas de todos sermos pessoas
Uma Escola onde não se oferecem presentes de natal ou de final de ano à Professora/Professor e se esquecem todos os outros que lá trabalham
Uma Escola onde conhecemos e aceitamos hábitos de vida diferentes dos nossos
Uma Escola onde convidamos amigos estrangeiros para nos virem falar e nos darem a experimentar as suas culturas
Uma Escola onde aprendemos a retribuir
Uma Escola onde os nossos horários não parecem horários de adultos que lutam pela regulamentação das 35 horas semanais
Uma Escola onde as Artes são tão importantes como as Letras e os Números
Uma Escola onde não há blocos de noventa minutos de aulas, nos quais até os adultos têm dificuldade de se manter atentos
Uma Escola onde não haja necessidade de medicar meninas e meninos, apenas e só porque não somos todos iguais
Uma Escola onde umas meias às riscas ou com bonecos não são motivo de risota em grupinho, uma Escola em que cada um possa expressar-se livremente sem ofender ninguém
Uma Escola onde os Pais façam parte das aprendizagens
Uma Escola onde não haja dois lados da barricada, Pais/Professores, aliás uma Escola onde não haja barricadas
Uma Escola onde os Pais nunca falem mal dos Professores
Uma Escola onde os Pais aceitem as meninas e os meninos diferentes, mais uma Escola onde os Pais consideram um privilégio haver meninas e meninos diferentes
Uma Escola onde importantes somos Todos
Uma Escola onde a Ginástica é tão importante como as Letras ou os Números
Uma Escola sem quadros de honra ou mérito
Uma Escola sem “examinites agudas” aos 9, aos 11, aos 13 anos, de preferência sem exames
Uma Escola onde a preocupação seja aprender, praticar, ensinar e não ajuizar, avaliar e examinar
Uma Escola onde se aprenda que reconstruir é mais importante que deitar fora, que nem tudo é descartável
Uma Escola onde se aprenda que há quem tenha muito menos do que nós, e que solidariedade também não é só uma das tais palavras nos cartazes
Uma Escola onde a gratidão se aprende e se pratica todos os dias
Uma Escola onde os Avós e os anciões são sempre bem vindos, onde aprendemos a escutá-los e dar-lhes valor
Uma Escola onde a Educação das Emoções seja tão importante como as restantes aprendizagens formais
Uma Escola onde se aprende a evitar desperdícios, onde só nos servimos da quantidade que vamos comer, onde o que fica nas travessas é distribuído por quem não sabe se vai ter jantar
Uma Escola onde podemos ser nós a amassar o pão que vamos comer ao lanche
Uma Escola onde os canteiros e a relva são cuidados por Todos
Uma Escola que não esquece que há mais mundo, mas que podemos começar por ajudar os nossos vizinhos
Uma Escola que nos convida a levar as nossas roupas que já não nos servem para doar a quem façam falta
Uma Escola onde aprendemos que as meninas são respeitadas, onde não se levantam saias nem se mandam piropos
Uma Escola onde aprendemos que, para fazer publicidade a um carro, por exemplo, não tem que estar uma menina a rodar sobre si própria
Uma Escola onde aprendemos que a violência no namoro (ou noutra qualquer fase da vida) não tem qualquer sentido, que quem ama cuida
Uma Escola onde aprendemos a capacitar meninos e meninas para a idade adulta
Uma Escola onde aprendemos e praticamos: dividir, partilhar, etc
Uma Escola onde aprendemos que pensar pela nossa cabeça é muito importante
Uma Escola onde aprendemos a pensar, a questionar e a propor para mudar
Uma Escola onde aprendemos que ter uma opinião é importante, mas que temos que saber sustentá-la e argumentá-la
Uma Escola onde aprendemos que a nossa Liberdade termina onde começa a dos outros
Uma Escola onde aprendemos que ler, escrever, desenhar, dançar, tocar música ou fazer teatro quebram barreiras
Uma Escola onde aprendemos que podemos ser a mudança em que acreditamos
Uma Escola onde somos/fomos felizes... dura-nos para toda a vida!

Manifesto de uma aluna (Sofia Cecílio)

É verdade, a escola é algo serio. Mas não demasiado! E sinto que cada vez mais os professores a levam demasiado a serio. Não nos dão liberdade, tiram-nos o tempo... Às vezes quero ir estudar piano ou canto porque é aquilo que realmente quero fazer na minha vida e simplesmente não posso pois a escola ocupa o espaço de mil e uma outras coisas importantes. A música, teatro e tudo mais são coisas que estimulam, ao contrário do que a escola tem feito.
Às vezes sinto que os professores não entendem que as coisas têm de mudar, senão nunca vai acontecer nada! Às vezes parece que eles querem fazer-nos passar pelo que passaram... Isso é tão mau! É tão mau não aceitar as mudanças. Mudanças são necessárias para um futuro melhor. É preciso mudar. E só não o fazemos porque não nos permitem.
É triste ver o mundo assim. Se nos dessem a conhecer o mundo onde vamos viver ganhavam mais. Aposto que vou chegar aos 18 anos sem saber sequer depositar um cheque!
Precisamos de tomar medidas. E é por isso que vamos lutar!😉💪

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Por uma escola diferente. Por um mundo melhor. (Sara Rodi

Quando, há três anos, sugeri ao meu filho mais velho que parasse de se queixar da escola e tomasse nota do que gostava de mudar nela, recebi um role de sugestões que, desde então, têm norteado a minha “luta” por uma mudança necessária:
* O excesso de avaliações e exames coloca uma pressão enorme nos alunos. Não se trabalha para saber, mas para ter boas notas. Sendo que esta pressão recai também sobre os professores e sobre as escolas (ai os rankings!). Hoje sabe-se que, sob um stress excessivo, a energia mental é reduzida. O cérebro aciona todos os seus mecanismos primários de alerta, prejudicando a apreensão cognitiva. Se pomos uma criança a andar sobre o arame, como queremos que ela aprenda a tabuada?
* A aprendizagem devia ser mais divertida, com mais jogos, mais experiências. Os alunos deviam sair mais das escolas e conhecer o mundo para o qual se estão a preparar. Claro que tudo isto tem custos. Mas grande parte do problema prende-se ao excesso de matéria que se dá em cada ano. Muitos professores revelam dificuldade em cumprir o conteúdo programático, e nada é devidamente aprofundado, experienciado, questionado. Para os testes, é mais avaliada a capacidade de “decorar” dos alunos do que a sua compreensão aprofundada e o seu sentido crítico. Como diz o meu filho, “para quê decorar tanta coisa que não nos interessa nem vai interessar para o nosso dia-a-dia, se hoje temos o Google?”.
* Passar um dia inteiro sentado a uma secretária a ouvir alguém a falar (por mais estimulante que seja) é duro. Especialmente duro para uma criança ou jovem que está numa idade em que precisa de brincar, correr e saltar. Deixar a escola ao final de um dia inteiro e ainda ter de ir fazer trabalhos de casa e estudar para os testes, é uma violência. Se até os adultos ao final do dia sentem necessidade de descansar, porque é que as crianças têm de continuar a trabalhar? Se é necessário ter as crianças nas escolas, ocupadas, porque não dar-lhes outras ferramentas que são também fundamentais para o seu desenvolvimento (e às vezes muito mais do que certas matérias): artes plásticas, teatro, música, dança, desporto, trabalho sobre as emoções, filosofia, culinária, cidadania, escrita criativa, línguas, etc, etc, etc? Porque terão estas atividades de ser remetidas para o final da tarde, quando as crianças já estão cansadas?
* Todas as crianças são diferentes. Têm talentos e qualidades. Num sistema de ensino igual para todos até uma idade avançada, há muito pouco espaço para o desenvolvimento individual dos talentos de cada um. A aposta (em aulas de apoio e explicações) é sempre naquilo em que os alunos são mais fracos. Não se aposta naquilo em que o aluno poderia fazer a diferença, agora e no futuro.
* As turmas são muito grandes, há muito barulho e dispersão, os professores passam uma boa parte do tempo a ralhar e a aplicar castigos. Se a maior parte das matérias está na internet, em vídeos e conteúdos bem explicados, não seria mais produtivo o aluno aprender autonomamente? E depois aproveitar o tempo com o professor para discutir e aprofundar as matérias, fazer experiências e trabalhos enriquecedores, beneficiando aí da existência de vários alunos?
* Se as tecnologias fazem parte do dia-a-dia dos alunos, e farão parte do seu futuro profissional, porque é que estão tão ausentes na escola?
Ao conversar abertamente com as crianças e os jovens, percebemos facilmente que eles não querem "matar" a escola. Eles entendem a importância da escola. Mas querem uma escola diferente, que não os deixe entediados, desmotivados e/ou frustrados dia após dia, durante anos a fio. Querem uma escola que os forme, mas também que os ajude a serem felizes, livres, curiosos, que os ensine a conhecerem-se, a conhecerem os outros e a saberem lidar com o mundo à sua volta. Parte deste trabalho deveria ser feito pelas famílias, é certo. Mas como exigir tanto às famílias se as crianças passam o dia todo na escola e a escola ainda invade o espaço com a família, com trabalhos de casa e estudo. Como exigir tanto às famílias, se os pais trabalham tanto e até tão tarde e não há políticas sociais e económicas que os apoiem? (e isso daria outro manifesto).
É hora de nós, pais e professores, nos perguntarmos seriamente para que serve a escola e que tipo de seres humanos estamos a criar nelas. Este modelo de ensino é uma herança do século XIX, em que era necessário capacitar futuros trabalhadores para as fábricas, essencialmente. Se o país e o mundo, neste momento, precisam de trabalhadores competentes, mas também empreendedores, autónomos, criativos, curiosos, com sentido crítico, capacidade de entreajuda e preocupados com o mundo que estão a construir... estará a escola a contribuir para a formação desse tipo de cidadãos? Se não, o que precisamos de mudar?
Em muitos países o sistema de ensino já está em mudança. Em várias escolas já não existem aulas, nem currículos estanques, nem avaliações como a nossas. A autonomia e o respeito pelas capacidades e interesses individuais da criança e jovem são trabalhados através de projetos interdisciplinares, com professores que são sobretudo tutores, mestres para a vida. Em Portugal, há também escolas que alimentam esse sonho e criam medidas inovadores que fazem toda a diferença na vida dos alunos. Esta mudança é possível. É necessária. E é urgente. Dela depende a felicidade das novas gerações. E uma geração feliz, constrói inevitavelmente um mundo melhor.

Somos responsáveis pela escola que construímos (Rute Moreira)

As nossas escolas são os espaços que construímos para acolher e proteger o que de mais precioso temos na vida: os nossos filhos, as nossas crianças!
Definimos estratégias e confiamos nos professores para que os apoiem e orientem no seu crescimento e na aquisição de competências, e em toda a comunidade educativa para que os protejam e os acompanhem no seu desenvolvimento a todos os níveis. É assim que evoluímos e crescemos, identificamos o que está errado e procuramos novas soluções.
E neste momento, a nossa Escola, precisa de novas soluções. O ensino não está ajustado às necessidades das nossas crianças, o professores não têm a autonomia, as condições e muitas vezes a formação que precisariam para dar resposta às solicitações. As questões logísticas e burocráticas sobrepõem-se às pedagógicas e os resultados medem-se em valores de avaliação e não em real aquisição de competências.
As nossas crianças não estão felizes, os nossos professores não estão felizes, os pais não estão felizes e.... o medo continua a ser mais forte do que a coragem de tentar fazer diferente. De uma forma ou de outra, porque a responsabilidade é grande, ninguém quer assumir mudar. De uma forma ou de outra, todos nos esquecemos que a escola que temos é da nossa responsabilidade e, se não serve às nossas crianças, somos nós pais e comunidade educativa que estamos a falhar.
Tenho a consciência que é difícil e que não há uma solução instantânea para resolver todos os problemas de uma vez mas tenho a absoluta convicção de que é preciso começar a agir. Identificar realmente os problemas e intervir. Partilhar estratégias, fazer consistentemente as mudanças possíveis, ao ritmo possível, com metas claras e bem definidas:
É preciso redefinir que competências e conhecimentos são realmente importantes transmitir, em que idades e sob que forma e que ritmo. O que é que realmente permite que a criança se desenvolva e que a faz procurar ela própria o conhecimento e a informação. É necessário nos alinharmos com o que é inato no ser humano para potenciar o seu desenvolvimento. E desenvolver o stress de sucessivas provas de performance da memória de curto prazo não é, como todos sabemos, uma solução.
É preciso que os professores, pais e comunidade educativa estejam alinhados para que os professores possam sentir a legitimidade e confiança que é essencial para que façam o seu trabalho.
É preciso readequar o papel da escola na comunidade e o da comunidade na escola. Sabemos que a escola é também um espaço de apoio e proteção das crianças na ausência dos pais enquanto trabalham. Dentro desse espaço temporal, é preciso diferenciar momentos e criar espaços de liberdade e lazer sem compromissos e obrigações.
O desafio é grande, mas se cada um der o seu contributo conseguiremos seguramente fazer diferente.

Acredito que é urgente e fundamental fazer uma mudança estrutural. Procuro pessoas que se queiram juntar para fazer o mesmo.