Quem somos
O Mundo transforma-se a uma velocidade estonteante.
Mudou a forma como nos relacionamos, como aprendemos. Não deveria mudar também a forma como ensinamos? Que tipo de cidadãos precisamos de formar para fazer face a um futuro que desconhecemos?
São cada vez mais os professores, pais e alunos que colocam a si próprios estas questões, e sentem no seu dia-a-dia a necessidade de mudança.
Aqui ficam os seus manifestos e relatos de boas práticas...
sábado, 21 de janeiro de 2017
BOAS EXPERIÊNCIAS - O Cantinho do Relaxamento, por Sandra Nave Nogueira
Sandra Nave Nogueira, professora de 1º ciclo no Colégio Monte Flor, partilhou connosco uma experiência que se tem revelado muito positiva. Na sua sala de aula, criou um "cantinho" de relaxamento, onde cada criança pode ir, livremente, sempre que se sinta mais triste, mas cansada, mais "zangada" e relaxar um pouco. Nesse cantinho existe um cesto que contém potes da calma, saquinhos de alfazema, plasticinas, lápis e folhas brancas, exercícios de respiração e bolas anti-stress...
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
Por Uma Escola Diferente (Joana Casimiro)
Eu sou a Joana, tenho 37 anos e sou mãe de 4 filhos.
Não sou licenciada, mas sim apaixonada pelo universo da
infância.
Passei de uma Educadora de Afectos, para uma Professora
Primária com uma régua de madeira em cima da secretária.
Prevaleceram os afectos e guardo no meu coração os
professores que mostravam a paixão desta arte de ensinar, assim como me sinto
uma privilegiada por ter no meu núcleo duro pessoas ligadas à área da saúde,
educação e por quem tenho tamanha admiração.
Porque cada criança é um ser único e especial. Porque deve
ser respeitado o seu ritmo. Porque tem o direito a não ser catalogada e
rejeitada. Porque todos temos gostos e formas de pensar diferentes. E porque
nas escolas não estão a dar a oportunidade das nossas crianças desenvolverem e
adquirirem as ferramentas mais preciosas na vida. Estas competências não estão
nos manuais e não se ensinam despejando matéria do início ao fim das aulas.
O receio da imposição educativa, o percurso dos meus filhos
mais velhos, deu-me a certeza de seguir a minha intuição e, mesmo com o olhar
de desconfiança da própria sociedade, o meu filho mais novo que, por fazer anos
depois de 15 de Setembro é considerado uma criança condicional, está a usufruir
da decisão de poder permanecer mais um ano nas histórias do faz de conta e
respeitar o seu crescimento como ser único e especial que é. Deixem as crianças
brincar!
Felizmente, existem Educadores, Professores, Pais e Famílias
diferentes nesta forma muito peculiar de pensar... Por Uma Escola Diferente...!
Por Uma Escola Diferente (Rita Alves)
O meu manifesto Por uma Escola Diferente começa por dar voz a quem me mostrou ao
longo da vida que a escola é uma parte da vida, e que a vida é a maior escola.
Agradeço à minha professora primária, Maria do
Céu, nunca ter abandonado a minha turma da 1ª à 4a classe e por nela
caberem tantas palavras como empenho, respeito, olhar, empatia, amor. Agradeço-lhe
a forma como me ensinou a juntar as letras, deve ter sido uma descoberta tão
maravilhosa que eu própria repeti a experiência, fazendo eu de professora e a
minha avó de aluna. Agradeço aos meus avós tantas histórias de resiliência e
exemplos de amor.
Agradeço à minha mãe nunca deixar de me pedir
que escrevesse cartas aos meus familiares.
Agradeço aos meus chefes de escuteiros terem-me
ensinado, aos seis anos, a responsabilidade de “fazer” uma mochila, a quem eu
escutei e não cumpri, e que tal atitude me levou a caminhar vários quilómetros
com umas botas espetadas nas costas, em vez de um saco-cama a acolchoar o impacto
da mochila pesada.
Agradeço aos que fizeram parte da minha
história o facto de eu hoje ser uma professora em construção.
Nunca tive o sonho de ser professora. A
licenciatura foi feita pelo prazer das atividades ao ar livre. Cedo percebi que
nunca conseguiria exercer tal prazer nas escolas. Cedo percebi que não
aguentaria várias horas seguidas, dezenas de crianças entre ranho, suor,
gritos, idas à casa de banho. No período de estágio mais significativo percebi
que era preciso viver todos os dias apaixonado pela profissão porque, se assim
não fosse, não era possível tantas horas seguidas e com sanidade mental.
Ter uma profissão como a de Professor é viver sempre
com a sua profissão. É viver com um complemento à vida que preenche tanto tempo
dela. É viver sempre com um olhar
pedagógico. É viver feliz, menos feliz, com esforço, trabalho, lutas, vitórias,
fracassos, alegrias, injustiças, justiças e sempre conscientes de que somos
poetas em constante construção.
Manifesto-me Por Uma Escola Diferente onde os professores estão
conscientes de que trabalham num lugar de
constante surpresa, porque lá habitam seres curiosos que todos os dias formulam
perguntas e não se contentam somente com uma resposta. Conscientes de que se
isto não acontece, não estão numa Escola.
conscientes de que trabalham num lugar onde não
há uma assistência, mas onde todos participam, cooperam, organizam, debatem e
são autores. Conscientes de que se isto não acontece, não estão numa Escola.
conscientes de que, quer eles quer os seus
alunos são investigadores de primeira linha. Conscientes de que se isto não
acontece, não estão numa Escola.
conscientes de que trabalham num lugar por
vezes frio, com paredes forradas de desencanto e corredores que guardam gritos
mas que à sua passagem se enchem de Luz.
conscientes de que trabalham num lugar onde
muita da agressividade e da violência provém de uma falha na raiz dos seus
participantes: amor. Conscientes de que são um bom suporte para o crescimento
saudável dos seus alunos.
conscientes de que a alegria, a verdade e a
empatia devem ser palavras-chave em todos os relatórios, ordens de trabalho e
atas.
conscientes de que qualquer dificuldade só o
deixa de ser quando olhamos para ela e lhe damos uma solução.
conscientes de as pessoas com as quais passamos
a maior parte do tempo das nossas vidas, os nossos alunos, não são menos ou
mais do que qualquer outra pessoa.
conscientes de que as pessoas, todas elas, e de
todas as idades, preferem um bom problema a uma não-solução.
conscientes de que todos os seus colegas de
profissão, alunos têm uma impressão digital diferente. Conscientes de que todos
eles também têm uma casa diferente da sua.
conscientes de que são modelos na formação de
uma pessoa e que essa pessoa os olha com esperança. Conscientes de que "Não
sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas
que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já
esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não: falar
delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer
que nos encontremos." como foi Sebastião da Gama.
conscientes de que são poetas em eterna
construção...
Rita Alves
Professora Ensino Básico 1º ciclo e Ensino
Superior
Por uma Sociedade mais Feliz e Saudável, através da Educação (Cristina Baptista)
Sou mãe, tenho formação médica, sou professora e estudante
de Neuroeducação. E sou, paralelamente a tudo isso, uma mulher ativa que quer
contribuir para uma sociedade mais feliz e saudável, o que acredito que obrigue
a uma intervenção na Educação.
E porquê?
Porque as Crianças revelam uma percentagem elevada
de desmotivação, na escola. Apresentam também níveis de isolamento e
agressividade preocupantes, condições que dificultam a aprendizagem, o seu
sucesso pessoal e, posteriormente, o profissional.
O modelo educativo atual
não prepara os alunos para os desafios que o mundo em que vivemos no séc. XXI
requer. De acordo com a OCDE, precisamos que os indivíduos tenham, para além do
conhecimento específico da sua área, competências como criatividade, pensamento
crítico e comunicação, e saibam ainda trabalhar em colaboração.
Neste
sentido, o que poderíamos mudar no sistema educativo?
* As crianças são todas diferentes entre si,
aprendem de forma diferente e as necessidades de cada escola também são diferentes, por isso precisamos de
autonomia nas escolas e de um ensino adequado a cada perfil de criança. Não
podemos ter uma escola igual para todos.
* É preciso haver uma mudança de mentalidade, os
professores precisam de novas ferramentas para os desafios de hoje, precisam de
conhecer melhor o funcionamento do cérebro, terem conhecimentos da
neurociência, a emoção e a razão não podem ser separadas. Não há aprendizagem
sem o envolvimento da emoção. Desenvolvermos conteúdos emocionais significa
também desenvolvermos o cognitivo.
A emoção, a empatia e o afeto promovem o
aproveitamento dos alunos.
* Os alunos deveriam aprender também a comunicar de forma empática, no sentido de se colocar no lugar do outro, respeitar e escutar, saber gerir conflitos e evitar a agressividade. É fundamental para trabalharem num mundo cada vez mais global, para além de
facilitar a criação de relações interpessoais com qualidade, que lhes permitam sentirem-se
mais felizes e saudáveis. Numa época onde abunda o isolamento e o sentimento de
desconexão, são notórios os efeitos prejudiciais
no aproveitamento escolar...
* Os professores precisam de ser criativos para estimular a curiosidade do
conhecimento, e desenvolver aulas mais interativas onde os alunos possam
ser mais participativos e também criativos
ou inovadores, onde trabalhem em equipa
para desenvolver mais colaboração. O
professor não pode ser o individuo que “despeja” o programa curricular, precisa
de desenvolver pensamento crítico, levando
os alunos a analisarem, refletirem e escolherem uma estratégia/ ação. Deve
ensinar os alunos a pensar e a saber estudar, ou seja, a aprender método de
estudo e a saber pesquisar e selecionar
a informação disponível na internet.
Um aluno não aprende com teoria, precisa de
perceber a aplicação do conhecimento que está a adquirir, assim a vivencia e, e
com a reflexão dessa vivência, permite-se a integração do conhecimento, sem ser
preciso “marrar”.
* O professor, em vez dos clássicos T.P.C. , obrigatórios,
com a imagem pesada que a própria palavra lhe dá, motivaria os alunos a fazerem
pesquisas.
* Os alunos precisam de tempo livre, precisam de
brincar mais ou de ter tempo para socializar mais, há um excesso de carga
horária escolar.
Os professores precisam de sentir que o aprender é também é
ou pode ser diversão. Pode parecer paradoxal, mas o lúdico e a vivência são
excelentes formas de ensinar melhor. Por oposição, criar um ambiente de tensão
ou de stress, pelas endorfinas que liberta e as implicações dessa bioquímica,
só dificulta a aprendizagem e o aproveitamento escolar. Pais e professores
precisam desta consciência.
* As avaliações não podem apenas avaliar o
conhecimento, têm também de avaliar competências tais como a atitude, comunicar,
cooperar, a capacidade de inovar, de analisar pensar e agir. Essas competências serão precisas no mundo lá fora para
encontrarem novas soluções para um mundo em constante mudança.
Nota: criar um espaço para os alunos aprenderem
competências não significa aumentar o número de horas. Existem programas aplicados
em muitas escolas em que os conteúdos do programa são leccionados tendo em
conta o desenvolvimento destas competências.
Cristina Baptista
Associação Sorrir
Cristina Baptista
Associação Sorrir
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
Por um Novo Paradigma na Educação (Madalena Alves)
Como mãe, a minha vida
centra-se nos filhos. As preocupações são as mesmas que as de todas as outras
mães: queremos as crianças saudáveis, por isso procuramos uma boa alimentação,
exercício físico e bom acompanhamento médico. Queremos crianças felizes, por
isso procuramos estimular a autoestima, atividades para que descubram as suas
vocações, e oportunidades para brincarem, resguardados do mal que anda por
fora. Queremos também formar boas pessoas, pessoas competentes, pessoas únicas
com capacidades únicas para alimentar a nossa sociedade, e para isso procuramos
uma boa educação.
O que é certo é que os alunos
de hoje estão desmotivados para a aprendizagem, o ensino não é adequado às
necessidades e ao contexto atual, e certamente eles não percebem por que lhes é
útil, para além de servir para passar nos exames. Os currículos são tão
extensos que não dá para os professores serem professores, para ensinarem, só
dá para debitarem matéria sem tempo sequer para tirarem dúvidas. Será que
decorar matéria para passar um teste, e seguidamente a esquecer, pois têm de
decorar mais matéria para outra disciplina, é razoável? Nós, pais, temos
abordagens diferentes para cada filho, mas não damos tempo aos Professores de
fazer o mesmo com os seus 30 alunos...
As crianças aprendem ao fazer,
ao explorar, ao debater, ao ensinar o próximo. Este sistema atual de ensino
dirigido, gera adultos com poucas competências para lidar com a vida, para
fazerem eles próprios, criarem eles próprios. Gera cidadãos que não sabem
como participar mais ativamente na vida do país, pois estão habituados a ser
espetadores. E gera pessoas frustradas e tristes porque nunca viveram o seu
potencial.
Os primeiros anos de vida, e
não falo apenas do pré-escolar mas também do primeiro ciclo, deviam estar
inteiramente dedicados a ensinar competências, primeiro sócio-afetivas e depois
de trabalho em equipa, técnicas de aprendizagem, a busca da autonomia (que não
se deve confundir com independência), o autoconhecimento, o gosto pela
aprendizagem. Para que é que um aluno nesta idade deve saber o trajeto do bolo
alimentar, na sua transformação em quilo e quimo? E avaliamos todo este
conhecimento que não serve para nada, e não as competências que vão ser
necessárias para o futuro... Desde que decore, está tudo bem. E o que acontece
quando esta criança vira adulto e não sabe sequer gerir as suas finanças?
Portugal está cheio de génios
que se dão mal naquilo em que lhes obrigamos a ser bons. Li em tempos e
concordo: “Temos linhas uniformes, e grades curriculares, a arquitetura da Escola Tradicional
imita uma penitenciária. Celas trancadas (salas de aula) e corredores. Ambiente,
rotinas e relações institucionalizadas. Um mundo à parte. Não é
socialização, de verdade. É um simulacro esquelético de socialização. O
recreio equivale ao banho de sol diário dos prisioneiros. Sempre curto demais e
barulhento de energia acumulada. Crianças saudáveis vivem a Escola como
uma prisão. Em nível sutil, é mais grave: a colonização do corpo e da
subjetividade por programas disciplinares funciona como uma prisão invisível,
que acompanha a pessoa aonde ela for.”
Quando vamos
deixar o ensino dirigido, e passar a métodos amplamente estudados que são
infinitamente mais eficazes? Queremos criar uma escola diferente, ao mudarmos o
paradigma da educação! Estou certa de que a motivação dos professores aumentará,
pois ser-lhes-á devolvido o prestígio e a devida importância na sociedade (são
das profissões mais nobres e menos reconhecidas e recompensadas do país); a
motivação e autoconfiança das crianças também aumentará, pois passaremos a um
ensino de certa forma individualizado e aberto a todo o tipo de vocações; e a
sociedade terá profissionais de todos os ramos, mais bem preparados e, por
conseguinte, com mais sucesso e maior produtividade. Teremos uma sociedade
feliz e a contribuir com toda a sua potencialidade, em vez de pessoas que foram
reprimidas toda a vida.
Por Uma Educação Nova (Maria Paraíba)
A verdadeira e única RESPONSABILIDADE de cada ser humano e de cada pessoa/aluno, é cumprir-se, manifestar-se como SER ÚNICO, consciência única, ligada ao Todo.
Na escola e no seio familiar, o Ser deve auto-conhecer-se, para poder fazer escolhas que vão de encontro a esta manifestação.
Por isto, a ESCOLA, deve ser um espaço/contexto de desenvolvimento de competências ligadas à essência de cada um, em que a responsabilidade individual acontece de forma expansiva relativamente a este conhecimento de SI.
Esta é a ESCOLA que chama por nós: educadores, professores e pais.
Maria Paraíba
Mãe, educadora infantil e facilitadora em meditação
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
A Educação pela Arte, e a Urgência de Uma Escola Diferente (Isabel Medina)
Em Outubro de 1974,
ano da revolução, comecei a leccionar como professora estagiária de Inglês e
Alemão, no então Liceu de Queluz. Com apenas 22 anos deparava-me com um cenário
de mudança em que tudo seria possível. O ensino, tal como o conhecera, iria
mudar. E estava nas nossas mãos fazê-lo. A escola tradicional, herdada do
séculos XVIII e XIX, as carteiras alinhadas frente ao professor, a escuta
passiva, o decorar sem saber para quê, o “autismo” a que éramos relegados, a
pressão que nos impedia de crescer, tudo iria mudar. Entusiasmada, mergulhava
nas novas pedagogias, descobria novos caminhos, experimentava abordagens
motivadoras que permitissem desenvolver a imaginação, a criatividade, a
responsabilidade. Porque o Teatro fazia já parte da minha vida, nele encontrei
técnicas que aplicava nas aulas, permitindo que os alunos sentissem a
necessidade de aprender e desenvolver o seu conhecimento das línguas para
melhor poderem participar. O facto de o poder fazer enquanto estagiária e, no
ano seguinte, como orientadora de estágio, foi marcante. Tinha tempo, tinha
condições, e um grupo de professores confiante e empenhado.
E foi durante esses
dois anos que cresceu em mim a vontade de me dedicar à aplicação de técnicas
teatrais e de jogo dramático no Ensino. Ao tempo, um grupo de professores
ingleses (English Teaching Theatre)
apresentava um espetáculo de curtos sketches
cómicos para o ensino do Inglês que funcionava como motivação para o ensino da
língua. Os resultados eram muito eficazes. Conversando com eles apercebi-me de que
este tipo de experiências eram já bastante recorrentes em vários países, com
resultados muito positivos.
Em Portugal, a
Fundação Calouste Gulbenkian, através do seu Centro de Investigação Pedagógica,
desenvolvia desde meados do século XX e com a participação de brilhantes
pedagogos, entre eles o Prof. Arquimedes da Silva Santos, estudos em torno da
psicologia da criança e da sua relação com as artes, que levaram aos princípios
orientadores da Educação pela Arte, curso ministrado no Conservatório Nacional.
Frequentei o curso, e em 1976 apresentei ao Ministério da Educação a proposta
de formação do Gabinete de Comunicação e Teatro, constituído por um grupo
multidisciplinar de professores que, para cada disciplina, desenvolvia um
conjunto de exercícios e jogos de aprendizagem, com base em técnicas teatrais e
jogo dramático. Para além de oficinas práticas tanto para professores como para
alunos, de carácter mais didático, existia um seminário abrangente com o
propósito de despertar e desenvolver o indivíduo em todas as suas
potencialidades, privilegiando a imaginação, a liberdade, o foco, o poder da
palavra, a co-criação através de várias formas artísticas. Este seminário
encerrava com uma grande improvisação pelos participantes, seguida de um espetáculo
apresentado pelos orientadores.
Projeto aceite
depois de muitas peripécias, deu-se início em 1977 ao núcleo base do gabinete:
apenas foram autorizadas formações para as disciplinas de Português e Inglês.
Com muita resiliência e empenho, e com resultados surpreendentes em turmas-piloto
que acompanhávamos, o projeto foi expandindo até que, em 1980, o Gabinete de
Comunicação e Teatro conheceu finalmente
o seu formato original. Não é este o momento de escrever sobre o impacto
e os resultados obtidos. Sim, foram excelentes, com turmas-piloto a
provarem-no, com o Conselho da Europa a não só validá-lo como a indicá-lo como
uma das experiências mais inovadoras e bem-sucedidas realizadas no âmbito
europeu. Experiência que foi replicada noutros países e… continuada. Em 1988 o
Gabinete de Comunicação foi considerado um “luxo” pedagógico que o Ministério
não podia continuar a apoiar. Em 1989 foi extinto, por minha vontade, já que
seria a única professora a continuar agregada ao Ministério da Educação, depois
de anos a tentar que os nossos relatórios e sucessos alcançados se vissem
minimamente refletidos nas várias reformas do ensino que, entretanto,
aconteceram.
Fui buscar a minha
experiência, em primeiro lugar porque só sei falar daquilo que realmente vivi,
e em segundo, e mais importante, para que possamos perceber que, desde o início
do século XX, pedagogos reconhecem a ineficácia de um sistema de ensino saído
da revolução industrial e pensado para uma determinada época. Sabiam eles e
sabemos nós que apenas um desenvolvimento global de todas as valências de um
ser humano podem contribuir para um saudável desenvolvimento da criança, e para
as aprendizagens que a sociedade lhe oferece. Sabiam eles e sabemos nós que
todos somos diferentes, que as padronizações se fazem por condicionantes
físicas, financeiras, culturais, sociais, políticas, mas que cada indivíduo se
pode demarcar dessas condicionantes se lhe for possível o acesso à sua
verdadeira identidade, livre de medos, de ansiedades, de constrangimentos, de
preconceitos. Livres interiormente, abertos a novos conhecimentos, responsáveis
e seguros, são esses os seres humanos que queremos ver crescer. Para isso a
Escola tem de mudar. E se os responsáveis, os que investem e acreditam num
ensino diferente não conseguem fazer-se ouvir, então a questão é política. O
Poder não quer sociedades felizes, responsáveis, livres? O Poder prefere criar
fantoches manipuláveis?
Ao escrever as
últimas linhas do parágrafo anterior, disse para mim própria: basta! Toda a
minha vida, o Poder, a vontade política, etc, foram os monstros sem rosto que
tive de enfrentar. Os rostos que me diziam “não é possível mudar”, eram os
rostos do medo, os rostos dos sem-rosto, dos que aceitam o que lhes parece
inevitável, porque são essas as “diretivas”. Os que me diziam “ainda não é
altura, é preciso tempo…” eram as crianças formatadas que ocupavam agora os
lugares pelos quais tinham sofrido nas cadeiras da escola.
Mas os tempos
mudaram. Mudaram muito e continuam a mudar a grande velocidade. Somos muitos os
que sabem que sim, é tempo. Não podemos continuar a lobotomia de seres
maravilhosos. Não podemos permitir que as nossas crianças a quem, na infância,
tantas vezes reconhecemos talentos e capacidades, sejam transformadas em mais
um número no mercado de trabalho. Quantas vezes se ouve dizer: “prometia tanto
em miúdo…”, “perdeu-se completamente, o que terá acontecido?”. E, se formos a
ver o que aconteceu, damos connosco a não compreender. Pois… Se até teve uma
vida tão boa… Mas houve a Escola pelo meio, não?
O Ensino pode ser o
grande demolidor ou o grande construtor. Sabemos como pode ser construtor. E
sabemos como pode ser demolidor. Se o Poder não quer, se a vontade política não
é essa, qual a solução? Há escolas onde novos conteúdos estão a ser
implementados, onde o desenvolvimento transpessoal e o ensino pelas artes têm a
primazia. Dizem pais e pedagogos que não serve para os exames, mas que correm o
risco. O ensino público servia o mercado de trabalho. Já não serve. A
imaginação, a responsabilidade, o entusiasmo, o propósito, o seguir o que mais
gostamos, o termos respeito por nós próprios, levou milhares a co-criarem o seu
próprio emprego. Assim surgem, a cada dia, novas perspectivas, propostas
diferentes. Não estarão muito melhor preparadas para esses desafios, as
crianças que frequentam agora as escolas alternativas que o Estado não
reconhece? E, acima de tudo, não serão mais felizes?
Enquanto nada é
feito pelos governantes, mudemos nós, agora. Pelo bem-estar de futuras
gerações. Por um mundo melhor.
Isabel Medina
05/01/2017
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