Quem somos


O Mundo transforma-se a uma velocidade estonteante.

Mudou a forma como nos relacionamos, como aprendemos. Não deveria mudar também a forma como ensinamos? Que tipo de cidadãos precisamos de formar para fazer face a um futuro que desconhecemos?

São cada vez mais os professores, pais e alunos que colocam a si próprios estas questões, e sentem no seu dia-a-dia a necessidade de mudança.

Aqui ficam os seus manifestos e relatos de boas práticas...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A Educação pela Arte, e a Urgência de Uma Escola Diferente (Isabel Medina)


Em Outubro de 1974, ano da revolução, comecei a leccionar como professora estagiária de Inglês e Alemão, no então Liceu de Queluz. Com apenas 22 anos deparava-me com um cenário de mudança em que tudo seria possível. O ensino, tal como o conhecera, iria mudar. E estava nas nossas mãos fazê-lo. A escola tradicional, herdada do séculos XVIII e XIX, as carteiras alinhadas frente ao professor, a escuta passiva, o decorar sem saber para quê, o “autismo” a que éramos relegados, a pressão que nos impedia de crescer, tudo iria mudar. Entusiasmada, mergulhava nas novas pedagogias, descobria novos caminhos, experimentava abordagens motivadoras que permitissem desenvolver a imaginação, a criatividade, a responsabilidade. Porque o Teatro fazia já parte da minha vida, nele encontrei técnicas que aplicava nas aulas, permitindo que os alunos sentissem a necessidade de aprender e desenvolver o seu conhecimento das línguas para melhor poderem participar. O facto de o poder fazer enquanto estagiária e, no ano seguinte, como orientadora de estágio, foi marcante. Tinha tempo, tinha condições, e um grupo de professores confiante e empenhado.
E foi durante esses dois anos que cresceu em mim a vontade de me dedicar à aplicação de técnicas teatrais e de jogo dramático no Ensino. Ao tempo, um grupo de professores ingleses (English Teaching Theatre) apresentava um espetáculo de curtos sketches cómicos para o ensino do Inglês que funcionava como motivação para o ensino da língua. Os resultados eram muito eficazes. Conversando com eles apercebi-me de que este tipo de experiências eram já bastante recorrentes em vários países, com resultados muito positivos.
Em Portugal, a Fundação Calouste Gulbenkian, através do seu Centro de Investigação Pedagógica, desenvolvia desde meados do século XX e com a participação de brilhantes pedagogos, entre eles o Prof. Arquimedes da Silva Santos, estudos em torno da psicologia da criança e da sua relação com as artes, que levaram aos princípios orientadores da Educação pela Arte, curso ministrado no Conservatório Nacional. Frequentei o curso, e em 1976 apresentei ao Ministério da Educação a proposta de formação do Gabinete de Comunicação e Teatro, constituído por um grupo multidisciplinar de professores que, para cada disciplina, desenvolvia um conjunto de exercícios e jogos de aprendizagem, com base em técnicas teatrais e jogo dramático. Para além de oficinas práticas tanto para professores como para alunos, de carácter mais didático, existia um seminário abrangente com o propósito de despertar e desenvolver o indivíduo em todas as suas potencialidades, privilegiando a imaginação, a liberdade, o foco, o poder da palavra, a co-criação através de várias formas artísticas. Este seminário encerrava com uma grande improvisação pelos participantes, seguida de um espetáculo apresentado pelos orientadores.
Projeto aceite depois de muitas peripécias, deu-se início em 1977 ao núcleo base do gabinete: apenas foram autorizadas formações para as disciplinas de Português e Inglês. Com muita resiliência e empenho, e com resultados surpreendentes em turmas-piloto que acompanhávamos, o projeto foi expandindo até que, em 1980, o Gabinete de Comunicação e Teatro conheceu finalmente  o seu formato original. Não é este o momento de escrever sobre o impacto e os resultados obtidos. Sim, foram excelentes, com turmas-piloto a provarem-no, com o Conselho da Europa a não só validá-lo como a indicá-lo como uma das experiências mais inovadoras e bem-sucedidas realizadas no âmbito europeu. Experiência que foi replicada noutros países e… continuada. Em 1988 o Gabinete de Comunicação foi considerado um “luxo” pedagógico que o Ministério não podia continuar a apoiar. Em 1989 foi extinto, por minha vontade, já que seria a única professora a continuar agregada ao Ministério da Educação, depois de anos a tentar que os nossos relatórios e sucessos alcançados se vissem minimamente refletidos nas várias reformas do ensino que, entretanto, aconteceram.
Fui buscar a minha experiência, em primeiro lugar porque só sei falar daquilo que realmente vivi, e em segundo, e mais importante, para que possamos perceber que, desde o início do século XX, pedagogos reconhecem a ineficácia de um sistema de ensino saído da revolução industrial e pensado para uma determinada época. Sabiam eles e sabemos nós que apenas um desenvolvimento global de todas as valências de um ser humano podem contribuir para um saudável desenvolvimento da criança, e para as aprendizagens que a sociedade lhe oferece. Sabiam eles e sabemos nós que todos somos diferentes, que as padronizações se fazem por condicionantes físicas, financeiras, culturais, sociais, políticas, mas que cada indivíduo se pode demarcar dessas condicionantes se lhe for possível o acesso à sua verdadeira identidade, livre de medos, de ansiedades, de constrangimentos, de preconceitos. Livres interiormente, abertos a novos conhecimentos, responsáveis e seguros, são esses os seres humanos que queremos ver crescer. Para isso a Escola tem de mudar. E se os responsáveis, os que investem e acreditam num ensino diferente não conseguem fazer-se ouvir, então a questão é política. O Poder não quer sociedades felizes, responsáveis, livres? O Poder prefere criar fantoches manipuláveis?
Ao escrever as últimas linhas do parágrafo anterior, disse para mim própria: basta! Toda a minha vida, o Poder, a vontade política, etc, foram os monstros sem rosto que tive de enfrentar. Os rostos que me diziam “não é possível mudar”, eram os rostos do medo, os rostos dos sem-rosto, dos que aceitam o que lhes parece inevitável, porque são essas as “diretivas”. Os que me diziam “ainda não é altura, é preciso tempo…” eram as crianças formatadas que ocupavam agora os lugares pelos quais tinham sofrido nas cadeiras da escola.
Mas os tempos mudaram. Mudaram muito e continuam a mudar a grande velocidade. Somos muitos os que sabem que sim, é tempo. Não podemos continuar a lobotomia de seres maravilhosos. Não podemos permitir que as nossas crianças a quem, na infância, tantas vezes reconhecemos talentos e capacidades, sejam transformadas em mais um número no mercado de trabalho. Quantas vezes se ouve dizer: “prometia tanto em miúdo…”, “perdeu-se completamente, o que terá acontecido?”. E, se formos a ver o que aconteceu, damos connosco a não compreender. Pois… Se até teve uma vida tão boa… Mas houve a Escola pelo meio, não?
O Ensino pode ser o grande demolidor ou o grande construtor. Sabemos como pode ser construtor. E sabemos como pode ser demolidor. Se o Poder não quer, se a vontade política não é essa, qual a solução? Há escolas onde novos conteúdos estão a ser implementados, onde o desenvolvimento transpessoal e o ensino pelas artes têm a primazia. Dizem pais e pedagogos que não serve para os exames, mas que correm o risco. O ensino público servia o mercado de trabalho. Já não serve. A imaginação, a responsabilidade, o entusiasmo, o propósito, o seguir o que mais gostamos, o termos respeito por nós próprios, levou milhares a co-criarem o seu próprio emprego. Assim surgem, a cada dia, novas perspectivas, propostas diferentes. Não estarão muito melhor preparadas para esses desafios, as crianças que frequentam agora as escolas alternativas que o Estado não reconhece? E, acima de tudo, não serão mais felizes?
Enquanto nada é feito pelos governantes, mudemos nós, agora. Pelo bem-estar de futuras gerações. Por um mundo melhor.

Isabel Medina
05/01/2017

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